Existe uma ideia antiga de que vinho exige silêncio. Taça, mesa posta, talvez um quarteto de cordas ao fundo. Mas, e se a melhor combinação para um grande Bordeaux não for Wolfgang Amadeus Mozart e, sim, o AC/DC?
A neurociência explica. Pesquisas conduzidas por Charles Spence, da Universidade de Oxford, mostram que a música altera de forma concreta a percepção do vinho. Em um dos estudos, 154 profissionais do mundo do vinho (sommeliers, jornalistas, enólogos e restaurateurs, todos com pelo menos 18 anos de experiência) foram expostos a diferentes estímulos sonoros durante degustações. Os resultados impactaram 100% dos participantes.
Músicas com sons graves, pesados, intensos — guitarras distorcidas, bateria marcada, baixo pulsante — tendem a amplificar características como corpo, tanino e estrutura. Exatamente o que define um bom Bordeaux. O mesmo vale para outros vinhos da pesada. Tente um Cabernet Sauvignon da margem esquerda, ou um blend mais clássico, e dê um play em “Have a drink on me” (Bebam por minha conta), uma das canções do AC/DC. De repente, o vinho parece mais encorpado, mais profundo, mais sério. Achou demais para os ouvidos? A mesma sensação pode ser experimentada na degustação conjunta com peças eruditas ricas e intensas.
O vinho com o sem música é o mesmo, mas o que mudou? Descobriu-se a forma com que nosso cérebro mescla os diferentes sentidos, de forma que tenhamos uma experiência única. Ou seja, o que você ouve e vê pode interferir ou intensificar os sabores. O cérebro não separa os sentidos, mas os mistura, o que os pesquisadores chamaram de correspondência crossmodal.
Troque o rock por algo leve e melódico. Um branco ácido, como um Sauvignon Blanc ou Alvarinho, por exemplo, ganham ainda mais frescor, brilho, ficam vibrantes. Sons agudos ressaltam fruta. Sons suaves aumentam a sensação de delicadeza.
Você não precisa ser especialista para sentir os efeitos sugeridos pelos neurocientistas. Chefes de cozinha, como o inglês Heslton Blumenthal, do estrelado Fat Duck, já vem fazendo experiências assim há quase dez anos.
Aqui vão algumas sugestões.
– Vinho branco fresco (Alvarinhos, Rosés, espumantes produzidos pelo método Chamat)
Combinam com o Quarteto para Flauta em Ré maior (Movimento 1), de Wolfgang Amadeus Mozart — uma peça descrita como melódica, vibrante e harmoniosa.
– Vinho tinto estruturado (como Bordeaux, Toscanos de Bolgheri)
Harmonizam com o Quarteto de Cordas nº 1 em Ré maior (Movimento 2), de Pyotr Ilyich Tchaikovsky — uma música intensa e melancólica, que acompanha a profundidade e riqueza do vinho.
– Vinhos vibrantes e refrescantes (como Sauvignon Blanc, Chadonnay, sem carvalho)
Notas agudas, piano ou instrumentos de sopro destacam os aromas cítricos e frutados.
-Vinhos potentes e encorpados (como Cabernet Sauvignon ou Malbec)
Funcionam melhor com músicas graves e densas, como metais ou peças orquestrais profundas.
Gostou da lista?
Esses estudos mostram que o som do vinho e o ambiente em que ele é consumido fazem parte da experiência sensorial. Por isso, aperte o play e boa degustação.
Só não precisa seguir literalmente a filosofia pé na jaca da letra de “Have a Drink on Me”: Aproveite o hoje, esqueça a conta, vamos pagar o inferno depois.




