Esposa do ex-deputado estadual e ex-presidente da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj) Rodrigo Bacellar (União), Manoella Duarte publicou nas redes sociais, nesta segunda-feira (14), uma nota em que relata as condições em que encontrou o ex-deputado durante uma visita na última quinta-feira (10). Bacellar está preso provisoriamente no presídio federal de Mossoró, no Rio Grande do Norte.
Entre os relatos apresentados por Manoella estão o uso de um caneco para tomar banho, a falta de ventilador na cela, dificuldades relacionadas à presença de mosquitos e problemas de saúde.
“Eu vi Rodrigo com as marcas da algema no corpo. Ele me relatou que toma banho usando um caneco. Que não tem ventilador na cela. Que dorme com sabonete no corpo para os mosquitos não se aproximarem”, escreveu.
Ainda segundo a esposa, Bacellar estava com o dedo do pé inflamado e teria colocado o pé em comida quente para tentar aliviar a dor.
Manoella também afirmou que, embora a unidade disponha de atendimento médico, haveria restrições à entrada de medicamentos prescritos pelos médicos que acompanham o ex-deputado.
Outro ponto citado na publicação é a impossibilidade de Bacellar ter o banho de sol. Segundo Manoella, os horários seriam divididos entre facções e milícias e o marido não faria parte de nenhum desses grupos.
A esposa afirmou que não pretende discutir as acusações contra Bacellar nem o andamento das investigações.
“Não venho a público discutir o processo. Não venho falar de acusações nem de investigações. Isso é assunto da Justiça, e eu confio que a Justiça fará o seu trabalho e a verdade prevalecerá”, relatou.
Na sequência, Manoella afirmou que sua manifestação trata das condições de custódia do marido.
“Venho aqui falar sobre dignidade. A dignidade de uma pessoa não depende de sentença. Não depende de decisão alguma. Ela não se perde na porta de um presídio”, afirma.
Ela ressaltou que Bacellar é preso provisório e ainda não foi condenado.
“Não peço privilégio. Não peço tratamento diferenciado. Não peço, nesta nota, a sua liberdade. Peço o mínimo: água, ventilador e atendimento médico adequado à situação dele. Exatamente o que a legislação brasileira assegura a qualquer pessoa presa neste país”, escreveu.
Transferência para Mossoró
Rodrigo Bacellar foi transferido em 8 de julho para o presídio federal de Mossoró, no Rio Grande do Norte, localizado a cerca de 280 quilômetros de Natal. Antes, ele passou uma semana na unidade de segurança máxima de Brasília, após deixar o Bangu 8, no Rio de Janeiro.
Segundo apuração do jornalista Ricardo Bruno, do Agenda do Poder, a transferência foi vista por amigos e familiares do político como mais uma tentativa de isolamento absoluto. A avaliação atribuída a pessoas próximas é de que o objetivo seria pressioná-lo a fechar um acordo de delação premiada.
A distância também teria agravado o impacto para a família. Parentes disseram ao Agenda do Poder que ficaram emocionalmente abalados com a decisão, justamente pela dificuldade maior para realizar visitas e manter contato com o ex-deputado.
Inaugurado em 2009, o presídio federal de Mossoró tem capacidade para 208 presos considerados de “alta periculosidade” pela Justiça. Entre os nomes que estão ou já passaram pela unidade estão Marcola, Fernandinho Beira-Mar e Marcinho VP.
O que diz a Secretaria Nacional de Políticas Penais
Através de nota, a SENAPPEN informou que todos os custodiados do Sistema Penitenciário Federal recebem as assistências previstas na Lei de Execução Penal e atendimento conforme os protocolos adotados pelas unidades e que todas as penitenciárias federais dispõem de Unidade Básica de Saúde, atendimento por telemedicina e equipe multiprofissional, composta por médicos, farmacêuticos, profissionais de enfermagem, técnicos de enfermagem e outros especialistas.
Disse ainda que, informações individualizadas sobre o estado de saúde, diagnóstico, tratamento ou uso de medicamentos não são divulgadas, em respeito ao sigilo médico e à legislação de proteção de dados pessoais, e que mais informações sobre os procedimentos de segurança do Sistema Penitenciário Federal estão disponíveis no site.
A reportagem solicitou, novamente, informações sobre o relato de marcas de algemas pelo corpo, banho com caneco, cela sem ventilador, mosquitos, alívio de dor dentro de comida quente e falta de banho de sol, e aguarda retorno.
Acusações
A Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal (STF) recebeu, em 18 de agosto, a denúncia contra Rodrigo Bacellar. Ele é acusado de usar o cargo para atrapalhar investigações relacionadas ao Comando Vermelho.
De acordo com as investigações, Bacellar teria avisado o então deputado estadual Thiego Raimundo dos Santos Silva, conhecido como TH Joias, sobre a operação que resultaria na prisão dele, na véspera da ação. Segundo a Polícia Federal, o vazamento teria permitido que o parlamentar destruísse provas e deixasse a própria residência horas antes da chegada dos agentes.
Ainda segundo a PF, a suposta intervenção de Bacellar teria causado obstrução na investigação realizada no âmbito da Operação Zargun. O envolvimento do ex-presidente da Alerj teria sido identificado após a análise de materiais apreendidos durante a operação realizada em setembro de 2025.
O desembargador Macário Júdice, que à época era relator das investigações no Tribunal Regional Federal da 2ª Região (TRF-2), é apontado pela Procuradoria-Geral da República como peça central do suposto vazamento. Ele também é acusado de violação de sigilo funcional.
Bacellar foi preso em dezembro de 2025 em uma operação destinada a combater a atuação de agentes públicos envolvidos no vazamento de informações sigilosas. Ele foi liberado após o plenário da Alerj votar pela soltura, mas acabou preso novamente em março deste ano, após ter o mandato de deputado cassado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
TH Joias está preso desde setembro de 2025, enquanto Macário Júdice está preso desde dezembro do mesmo ano.
Leia abaixo a íntegra da manifestação publicada por Manoella Duarte nas redes sociais:
“Sou uma mulher reservada. Nunca expus a minha vida pessoal e nunca imaginei que faria algo assim. Mas na última quinta-feira, depois de dois meses sem poder ver o meu marido, o encontrei em condições que não me permitem mais permanecer calada. Eu vi Rodrigo com as marcas da algema no corpo. Ele me relatou que toma banho usando um caneco. Que não tem ventilador na cela. Que dorme com sabonete no corpo para os mosquitos não se aproximarem. Estava com o dedo do pé inflamado e me contou que, diante da dor, chegou a colocar o pé dentro da comida quente para tentar aliviar.
Por mais que a unidade disponha de atendimento médico, há restrições específicas, entre elas, a entrada dos medicamentos prescritos pelos médicos que o acompanham. Isso afeta diretamente a sua saúde física e psicológica. Não é possível ao Rodrigo usufruir nem mesmo do banho de sol, pois os horários são divididos entre facções e milícias e meu marido não faz e nunca fez parte de nenhuma. Não venho a público discutir o processo. Não venho falar de acusações nem de investigações. Isso é assunto da Justiça, e eu confio que a Justiça fará o seu trabalho e a verdade prevalecerá. Venho aqui falar sobre dignidade. A dignidade de uma pessoa não depende de sentença. Não depende de decisão alguma. Ela não se perde na porta de um presídio.
Meu marido é um preso provisório. Não foi julgado. Não foi condenado. Mas, acima de tudo, ele é um ser humano. Nenhum ser humano deveria estar nas condições em que eu o encontrei na última quinta-feira. Não peço privilégio. Não peço tratamento diferenciado. Não peço, nesta nota, a sua liberdade. Peço o mínimo: água, ventilador e atendimento médico adequado à situação dele. Exatamente o que a legislação brasileira assegura a qualquer pessoa presa neste país. A qualquer uma.
Sou esposa, mãe e avó. Passo as noites em claro pensando se ele vai aguentar. Mas ele é forte. Eu sei que vai. Tenho fé em Deus. Tenho fé na Justiça. E seguirei aqui, ao lado dele, todos os dias. Mas não posso me calar vendo ele ser tratado como se não fosse gente. Peço apenas uma coisa: que ele seja tratado como ser humano”.
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