Tinha cabelo branco por toda parte, no microfone, no palco, nos instrumentos, na plateia. Na noite desta segunda-feira, 7 de setembro, alguns dos músicos mais experientes do planeta se apresentaram no Rock in Rio e humilharam o preconceito do etarismo. Mostraram para a sociedade, que insiste em associar talento a juventude, beleza e novidade, que bons músicos e boa música não envelhecem nem têm prazo de validade.
Elton John, aos 79 anos, tocou seu piano e cantou durante mais de 2 horas e fez um show memorável, com 24 músicas, totalmente ao vivo, sem playback, diante de uma Cidade do Rock rendida a sucessos que atravessam décadas. Nada ali pedia condescendência pela idade. A lenda pedia aplauso pela qualidade e pelo desempenho. Elton disse que tinha que voltar aqui, depois da turnê cancelada na época da Covid, para agradecer ao público brasileiro.
Antes dele, Gilberto Gil, aos 84, fez o mesmo. Cantou, tocou violão, apresentou repertório renovado, revisitou clássicos e homenageou Rita Lee cantando “Ovelha Negra”. Um artista que esteve no primeiro Rock in Rio, em 1985, voltou ao Palco Mundo 41 anos depois sem viver apenas da nostalgia.
Roupa Nova e Guilherme Arantes
O Palco Sunset simplesmente lotou para receber o Roupa Nova e Guilherme Arantes, de 73 anos. A multidão cantou “Dona”, “Sapato Velho”, “Coração Pirata”, “Whisky a Go-Go” e tantos outros sucessos palavra por palavra. Além dos temas de Ayrton Senna e do próprio rock In Rio, que foram criados pela banda. Nas redes sociais, o show virou um dos assuntos mais comentados da tarde.
Guilherme Arantes viveu ali uma espécie de reparação tardia. Um dos maiores hitmakers da história da música brasileira, ele nunca havia sido chamado para cantar no Rock in Rio. Quando finalmente sentou ao piano e começou “Cheia de Charme” e seguiu com “Lindo Balão Azul”, não precisou provar que pertencia àquele palco. A reação da multidão fez isso por ele.
“Isso aqui é um sonho maravilhoso”, disse Guilherme Arantes durante a primeira apresentação dele no festival.
Leia mais notícia boa sobre Entretenimento
Fernanda Montenegro prestigia Marco Nanini no teatro e relembra que foi professora dele; vídeoFreddie Mercury 80 anos: ex-namorada Mary Austin confirma: foi “o amor da minha vida”; homenagensConfirmado: próximo eclipse solar vai fazer o dia virar noite durante 6 minutos; veja onde será visto
O festival dos cabelos brancos
Sim, artistas que durante décadas ajudaram a formar a trilha sonora de milhões de brasileiros ocuparam um festival normalmente associado à juventude e fizeram multidões cantar.
Roberto Menescal, um dos criadores da bossa nova, subiu ao Palco Mundo aos 88 anos para tocar com Luísa Sonza. Oficialmente, foi o artista mais velho anunciado pelo Rock in Rio 2026.
No Global Village havia quase uma seleção histórica da música brasileira. Wanda Sá, 82, abriu a programação. Depois vieram Joyce Moreno, 78, Leila Pinheiro e Fernanda Takai. João Bosco, que completou 80 anos em julho, encerrou o palco.
E, como se o festival precisasse de mais uma imagem para desmontar qualquer ideia de prazo de validade artístico, na noite anterior Tony Tornado apareceu de surpresa no show do Jota Quest, aos 96 anos
Tony entrou acompanhado do filho, Lincoln Tornado, cantou “Sossego”, de Tim Maia, dançou, brincou com o público e fez a Cidade do Rock dançar junto com ele. Nas redes sociais, muita gente se espantou com a energia do cantor.
Quando a música responde ao preconceito
Existe uma indústria inteira construída em torno do novo: novo rosto, novo corpo, nova música, nova tendência, novo artista. Junto com isso, um preconceito silencioso contra quem envelhece, especialmente em profissões expostas ao público.
Como se cabelos brancos diminuíssem talento. Como se experiência fosse sinônimo de passado. Como se houvesse uma idade para deixar de ocupar grandes palcos.
E Rock in Rio deste 7 de setembro de 2026 mostrou exatamente o contrário.
Não foi uma noite em que idosos foram homenageados por aquilo que fizeram um dia. Eles foram protagonistas pelo que fizeram ali, diante daquela multidão.
Elton John não emocionou porque tem 79 anos. Gilberto Gil não foi aplaudido porque tem 84. Roberto Menescal não estava naquele palco por caridade aos 88. Guilherme Arantes não lotou o Sunset porque alguém decidiu prestar uma homenagem a um senhor de 73 anos.
Eles emocionaram porque são extraordinários. E foi assim a melhor resposta ao etarismo: não pedir licença para envelhecer.
Porque artistas envelhecem, o cabelo embranquece, as gerações mudam. Mas música boa é pra sempre. Envelhecer é uma dádiva.




