Atletas amadores têm ocupado cada vez mais espaço nas ruas, academias e competições, impulsionados por uma busca crescente por saúde, bem-estar e superação pessoal. O número de inscritos no J3 Run Fest reflete um pouco desse cenário esportivo. No entanto, junto com esse movimento, cresce também a incidência de lesões, sobretudo entre aqueles que iniciam a prática esportiva sem orientação adequada ou avançam além dos limites do próprio corpo.
Médico radiologista e triatleta amador, Reinaldo Ottero observa que o aumento no número de praticantes está diretamente ligado à popularização do chamado “wellness”, um mercado em expansão que tem incentivado hábitos mais saudáveis. “O que tem crescido é o esporte, e isso é muito positivo. Mas, naturalmente, vem acompanhado de um aumento nas lesões”, afirma. Ainda assim, ele pondera que os benefícios superam os riscos. “É melhor lidar com uma lesão esportiva do que com problemas causados pelo sedentarismo, muitas vezes mais graves.”
Entre as lesões mais comuns em corredores, Ottero destaca a canelite, a fascite plantar, as tendinopatias — especialmente no tendão calcâneo —, além de fraturas por estresse e lesões musculares, como as que atingem o sóleo (músculo largo e profundo localizado na panturrilha, abaixo do gastrocnêmio). Segundo ele, o papel da radiologia é fundamental no diagnóstico e no estadiamento (extensão) dessas lesões, permitindo avaliar sua gravidade e orientar o tratamento e o tempo de recuperação.
Esse processo, no entanto, não é imediato — e exige paciência. “A principal pergunta do atleta não é qual é o tratamento, mas quando ele vai poder voltar. E isso depende de vários fatores: o tipo de lesão, a pessoa, o esporte praticado. Embora o condicionamento cardiovascular possa ser retomado com relativa rapidez, a musculatura demanda mais tempo de adaptação, o que aumenta o risco de recaídas quando o retorno é precipitado”, diz o triatleta amador e radiologista.
A fisioterapia surge, nesse contexto, como peça-chave na recuperação. O fisioterapeuta Sileno Júnior ressalta que o tratamento vai muito além das sessões em consultório. “Se o paciente vem duas vezes por semana, uma hora por dia, isso é pouco. O restante do tempo ele precisa dar continuidade em casa, com exercícios orientados de mobilidade, flexibilidade e fortalecimento”, afirma.
Sileno também chama atenção para os diferentes perfis de atletas que chegam à clínica: desde os que buscam saúde, passando pelos que veem o esporte como forma de socialização, até aqueles que procuram desempenho e acabam se tornando dependentes da sensação de bem-estar proporcionada pela atividade física. “Muitos utilizam a corrida como ferramenta de equilíbrio emocional. A dopamina traz essa sensação de leveza, e a ausência do exercício pode gerar estresse e ansiedade”, explica.
Esse aspecto emocional, inclusive, influencia diretamente no processo de reabilitação. “A gente entende o desespero de quem quer voltar logo, porque a atividade física impacta não só o corpo, mas também a mente, as relações pessoais e o rendimento no trabalho”, completa.
Para ambos os especialistas, a prevenção passa pela adaptação progressiva do corpo. “Não existe resultado imediato. O corpo precisa de tempo para se adaptar. Um atleta não sai do sedentarismo para um Ironman em poucos meses. Isso é uma construção”, destaca Reinaldo Ottero, que levou anos de prática até completar provas de longa distância.
Trabalho integrado
Outro ponto fundamental é o trabalho integrado entre profissionais. “Médicos, fisioterapeutas e preparadores físicos devem atuar de forma conjunta para evitar sobrecargas. Quando cada treinador atua isoladamente, há um risco de acúmulo de carga ao longo da semana, o que favorece lesões. O diálogo entre os profissionais é essencial”, reforça Sileno. Além disso, o autoconhecimento é apontado como uma das principais ferramentas de prevenção. “O atleta precisa entender os sinais do próprio corpo. Muitas vezes ele sente que algo não vai bem, mas ignora e segue em frente — e é aí que surgem as lesões”, alerta o fisioterapeuta.
Diferenças fisiológicas também devem ser consideradas. Mulheres, por exemplo, tendem a apresentar maior incidência de fraturas por estresse e maior propensão à osteoporose ao longo da vida, o que exige atenção ao tipo e à intensidade da carga nos treinos. Apesar dos riscos, a prática esportiva segue sendo altamente recomendada.
“A atividade física reduz o risco cardiovascular, diminui a incidência de diversas doenças e melhora a qualidade de vida. O importante é praticar com orientação, respeitando os limites e entendendo que o corpo precisa de tempo para evoluir”, conclui Reinaldo Ottero.
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