A reportagem especial do J3News, “Conselho de Mobilidade Urbana parado há 9 anos” (leia aqui), analisa os desafios enfrentados por Campos dos Goytacazes nas áreas de trânsito, transporte público, rodovias e estradas vicinais, além das dificuldades para enfrentar esses problemas históricos.
O pesquisador Rodrigo Lira, da Universidade Candido Mendes (UCAM), defende uma participação mais ativa da academia na formulação de políticas públicas para a mobilidade urbana. Com base na experiência do Programa de Pós-Graduação em Planejamento Regional e Gestão da Cidade e nas pesquisas desenvolvidas sobre Campos e o Norte Fluminense, ele afirma que a produção científica pode oferecer diagnósticos e soluções para qualificar o planejamento e a gestão da mobilidade no município.
Qual a importância de um Conselho Municipal de Mobilidade Urbana para discutir e acompanhar investimentos em transporte, estradas e planejamento viário em Campos?
A criação de um Conselho Municipal de Mobilidade Urbana representa um importante instrumento de fortalecimento da governança local. Mobilidade é um tema transversal, que envolve planejamento urbano, desenvolvimento econômico, meio ambiente, segurança viária e qualidade de vida. Um conselho permite que essas diferentes perspectivas sejam consideradas antes da tomada de decisões, contribuindo para que os investimentos sejam mais técnicos, transparentes e alinhados às reais necessidades da população.
Além disso, trata-se de um espaço permanente de diálogo entre poder público e sociedade, permitindo o acompanhamento das políticas públicas e a construção de soluções de médio e longo prazo, algo fundamental em uma área cujos resultados normalmente ultrapassam um mandato político.
Como a participação da sociedade civil, técnicos, empresários e representantes de diferentes setores poderia contribuir para definir prioridades e evitar investimentos que não resolvam os principais problemas da cidade?
A mobilidade é vivenciada de forma distinta por cada segmento da sociedade. Quem utiliza diariamente o transporte coletivo percebe dificuldades diferentes das enfrentadas por comerciantes, empresários, ciclistas, pessoas com deficiência ou moradores de bairros mais afastados.
Quando esses diferentes atores participam do processo decisório, o município amplia sua capacidade de identificar gargalos e estabelecer prioridades mais aderentes à realidade local. A presença de especialistas também contribui para que as decisões sejam fundamentadas em evidências e indicadores técnicos, reduzindo o risco de investimentos desconectados das necessidades da cidade.
Entretanto, é importante destacar que a simples existência de um conselho não garante, por si só, uma participação efetiva. Para que cumpra seu papel, é necessário que exista abertura institucional para o diálogo e que suas deliberações sejam efetivamente consideradas pelo Poder Executivo. Caso contrário, corre-se o risco de criar apenas mais uma instância formal, sem influência concreta sobre as políticas públicas.
Qual a relação entre planejamento urbano, crescimento da cidade e os problemas atuais de trânsito e mobilidade?
Esses temas são inseparáveis. A forma como uma cidade cresce determina diretamente sua dinâmica de deslocamentos. Quando a expansão urbana ocorre sem planejamento integrado entre uso do solo, habitação, transporte e infraestrutura, surgem problemas como congestionamentos, aumento do tempo de deslocamento, pressão sobre determinadas vias e dificuldades de acesso aos serviços públicos.
Campos possui características territoriais muito particulares, com grande extensão territorial, áreas rurais expressivas e um papel regional importante. Isso exige um planejamento contínuo, que antecipe demandas futuras em vez de apenas responder aos problemas quando eles já estão consolidados.
A falta de planejamento pode gerar impactos econômicos para o município, como dificuldades para empresas, comércio e circulação de mercadorias. Como a mobilidade urbana influencia o desenvolvimento de Campos e da região?
A mobilidade é um fator estratégico para o desenvolvimento econômico. Quanto maior a eficiência dos deslocamentos, menores são os custos logísticos, maior é a produtividade das empresas e melhor é o acesso da população ao emprego, à educação e aos serviços de saúde.
Campos exerce influência sobre diversos municípios do Norte e Noroeste Fluminense. Portanto, suas condições de mobilidade não afetam apenas seus moradores, mas toda uma região que depende da cidade para atividades econômicas, comerciais, educacionais e de saúde. Investir em mobilidade significa também aumentar a competitividade regional e criar um ambiente mais favorável ao desenvolvimento.
Além das grandes rodovias e vias estruturantes, quais medidas poderiam ser adotadas para melhorar o transporte público e a circulação dentro da área urbana de Campos?*
As soluções passam por uma combinação de ações. É importante modernizar o transporte coletivo, revisar itinerários com base na demanda atual da população, integrar diferentes modais, ampliar a acessibilidade, investir em tecnologia para gestão do trânsito e incentivar formas sustentáveis de deslocamento, como ciclovias e caminhabilidade, sempre considerando as características locais.
Também é fundamental utilizar dados para orientar as decisões. Informações sobre fluxo de veículos, origem e destino das viagens, horários de maior demanda e comportamento dos usuários permitem que os investimentos sejam mais eficientes e produzam melhores resultados.
Se Campos tivesse hoje um Conselho de Mobilidade Urbana atuante, quais decisões ou prioridades poderiam estar sendo discutidas para transformar a mobilidade do município nos próximos anos?*
Um conselho poderia contribuir para discutir uma agenda estratégica para a cidade, envolvendo temas como a atualização do Plano de Mobilidade Urbana, a integração entre transporte e expansão urbana, a melhoria do transporte coletivo, a segurança viária, a acessibilidade, a logística de cargas, a mobilidade sustentável e a articulação entre Campos e os municípios da região.
Mais importante do que discutir obras específicas seria construir uma visão de cidade para os próximos anos. A mobilidade precisa deixar de ser tratada apenas como resposta a problemas imediatos e passar a integrar um projeto mais amplo de desenvolvimento urbano.
Por fim, considero importante destacar um aspecto institucional. Sou um entusiasta dos conselhos municipais e da participação social. A democracia se fortalece quando cria espaços permanentes de diálogo entre governo e sociedade. Contudo, a experiência brasileira demonstra que muitos conselhos acabam funcionando de maneira limitada, seja pela baixa participação, seja por excessiva influência do Poder Executivo. O grande desafio, portanto, não é apenas criar um novo conselho, mas garantir que ele possua autonomia, representatividade e capacidade real de influenciar as decisões públicas. Somente assim ele poderá cumprir sua finalidade de contribuir para uma mobilidade urbana mais eficiente, democrática e alinhada aos interesses coletivos.
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