Há 50 anos, o fotógrafo, pesquisador e memorialista Leonardo Vasconcellos se dedica a uma missão que ultrapassa a preservação de imagens: reconstruir fragmentos da história de Campos dos Goytacazes por meio da fotografia. Aos 71 anos de idade, ele continua em plena atividade e em curiosidade permanente. O interesse surgiu ainda na juventude, após a leitura de uma reportagem feita em Nova York sobre os pioneiros da fotografia brasileira publicada no Jornal do Brasil.
“Eram fotógrafos que atuaram no século XIX e, em sua maioria, estrangeiros que vieram ao Brasil em busca do exotismo, registrando negros, indígenas, a vegetação e outros aspectos que despertavam curiosidade. Conheci essas fotografias que estavam guardadas em coleções públicas e particulares, inclusive fora do país, e isso me chamou muito a atenção”, revela.
Pouco tempo depois, ao ingressar no curso de Desenho Industrial com habilitação em Comunicação Visual, no Rio de Janeiro, Leonardo teve contato mais próximo com a fotografia e com importantes centros de pesquisa. “Tive acesso a diversas coleções, exposições e eventos ligados à fotografia. Passei a frequentar o Núcleo de Fotografia da Funarte, participando de cursos, palestras e encontros. Aquilo foi me estimulando cada vez mais.”
na Academia Campista de Letras
A partir dessa experiência, o pesquisador decidiu voltar seu olhar para a memória visual de Campos dos Goytacazes. “Trazer isso para a realidade de Campos foi uma consequência natural. Comecei a pesquisar arquivos e acervos para descobrir o que existia de fotografia antiga na cidade. Consultei coleções da atual Biblioteca Nilo Peçanha, acervos da minha família e coleções particulares importantes, como a de Francisco de Paula Carneiro, o Capitão Carneirinho, e a do doutor Dario Marinho, que reuniu uma das melhores coleções fotográficas de Campos.”
A pesquisa iniciada em 1976 resultou em seu Trabalho de Conclusão de Curso, transformado no livro Memória Fotográfica de Campos. Com o passar dos anos, Leonardo ampliou sua atuação dentro da então Escola Técnica Federal de Campos, atual Instituto Federal Fluminense, onde criou o Centro de Memória Fotográfica de Campos e reuniu um dos mais importantes acervos iconográficos do município.
“A possibilidade de transformar um trabalho que era individual em uma atividade institucional abriu muitas portas. Passei a contar com apoio para pesquisar, viajar e reunir material. Durante décadas, pude atender estudantes, jornalistas e pesquisadores que buscavam imagens para ilustrar trabalhos sobre a história da cidade”, afirma.
Ao longo desse período, Leonardo digitalizou coleções particulares, identificou fotografias, reuniu informações históricas e colaborou com inúmeras pesquisas acadêmicas e reportagens. O trabalho continua até hoje. Ele conta com o apoio de vários parceiros e pesquisadores para manter a memória da cidade viva. Entre eles, o memorialista Genilson Soares, integrante do Instituto Histórico e Geográfico de Campos dos Goytacazes (IHGCG). “É uma atividade que me dá enorme prazer. Continuo pesquisando, comprando livros, mantendo contato com especialistas e descobrindo novos acervos. Ainda há muito a aprender”, afirma Leonardo.
Imagens raras revelam uma Campos do século XIX
Entre as descobertas recentes e significativas realizadas por Leonardo Vasconcellos estão fotografias históricas de Campos encontradas fora da cidade, especialmente em acervos da Biblioteca Nacional. Foi durante suas pesquisas na Divisão de Iconografia da instituição que ele estreitou relações com o pesquisador Joaquim Marçal Ferreira de Andrade, uma das maiores autoridades brasileiras em história da fotografia. O contato permitiu acesso a importantes coleções, entre elas a Coleção Teresa Cristina Maria, organizada por Dom Pedro II e considerada um dos maiores conjuntos fotográficos do século XIX.
“Foi extremamente emocionante descobrir na Biblioteca Nacional fotografias de Campos produzidas por Guilherme Bolckau. São imagens extraordinárias da cidade na década de 1870 e que ajudam a compreender a formação urbana daquele período”, destaca. Segundo Leonardo, Guilherme Bolckau, fotógrafo alemão radicado no Brasil, produziu retratos e registros urbanos que hoje figuram entre os mais importantes documentos visuais sobre Campos no século XIX.
Outros nomes também ocupam posição central em suas pesquisas, como Herbert Henry Klumb, Camilo Vedani e Otávio Mendes. “Recentemente descobrimos que Herbert Henry Klumb esteve em Campos no final da década de 1850 atuando como fotógrafo. Encontramos anúncios publicados no Monitor Campista comprovando sua atividade profissional na cidade. São informações que ampliam significativamente nosso conhecimento sobre a fotografia em Campos”, explica.
No caso do italiano Camilo Vedani, conhecido nacionalmente por seu trabalho fotográfico, Leonardo ainda busca comprovações de sua atuação como fotógrafo na cidade, embora existam registros de sua presença em Campos como engenheiro ferroviário. “Cada nova fotografia encontrada amplia nossa compreensão da história local. São peças de um grande quebra-cabeça que ainda está longe de ser concluído.”
Novos acervos e memórias
Mesmo após cinco décadas de pesquisa, Leonardo Vasconcellos acredita que uma parcela significativa da memória fotográfica campista ainda permanece desconhecida. Para ele, cada acervo descoberto representa uma nova oportunidade de compreender o passado e preservar a identidade local.
Segundo ele, o crescente interesse da população pela preservação histórica tem contribuído para o surgimento de novos acervos e novas descobertas. Um exemplo recente ocorreu em 2021, durante as comemorações do centenário do Teatro Trianon. A pesquisa levou Leonardo ao acervo de Francisco de Paula Carneiro, o Capitão Carneirinho, empresário responsável pela construção do teatro e também fotógrafo amador. A coleção revelou registros raros da cidade no início do século XX e serviu de base para a produção de um livro comemorativo lançado no ano do centenário.
“Capitão Carneirinho produziu fotografias excepcionais de Campos. Sua família preservou esse material ao longo das décadas, permitindo que hoje possamos compreender melhor a cidade daquele período. Muitas coisas ainda precisam ser descobertas. À medida que as pessoas conhecem esse trabalho, começam a surgir informações sobre coleções particulares e documentos que estavam guardados havia décadas”, conclui.
Referências em imagens e bibliografias de Leonardo Vasconcellos
04-01-1859
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