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Mais da metade da vegetação nativa do Cerrado já foi perdida

Um artigo de revisão publicado recentemente na revista Nature Conservation alerta que o Cerrado brasileiro vive uma crise ambiental profunda. O estudo reúne décadas de pesquisas e mostra que esse vasto conjunto de paisagens naturais está sob pressão crescente. 

Conhecido como “floresta invertida”, o bioma é um dos mais ricos do planeta em biodiversidade.

Em resumo:

Pesquisa aponta que o Cerrado perdeu mais de 55% da vegetação nativa;

Expansão agropecuária lidera desmatamento e fragmentação ambiental;

Bioma armazena carbono no subsolo e regula água;

Incêndios, mineração e exóticas agravam degradação ecológica;

Proteção insuficiente ameaça biodiversidade, clima e segurança hídrica.

As imponentes palmeiras buriti no Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros conhecidas como “Os guardiões do Cerrado”. Crédito: Marco Antonio Carrilho – Shutterstock

Cerrado é o Ecodomínio que mais perdeu vegetação nativa

O Cerrado é classificado como um “Ecodomínio”, termo usado para definir grandes áreas ecológicas com relativa uniformidade de clima, relevo e vida. Trata-se do segundo maior da América do Sul, ocupando cerca de 24% do território nacional. Além da diversidade biológica, sustenta importantes bacias hidrográficas do país.

Apesar dessa relevância, mais de 55% da vegetação nativa já foi perdida. A área devastada ultrapassa um milhão de quilômetros quadrados, sobretudo nos últimos 50 anos. A expansão agropecuária e urbana lidera esse processo, convertendo áreas naturais em lavouras e pastagens.

Embora dados recentes indiquem leve redução nas taxas anuais de desmatamento, a perda acumulada continua aumentando. O Cerrado é hoje o Ecodomínio brasileiro que mais perdeu cobertura original. A fragmentação da paisagem compromete a fauna, a flora e o equilíbrio dos recursos hídricos.

Entre os principais vetores estão agricultura intensiva, mineração, crescimento urbano e especulação fundiária. Grandes extensões de savana deram lugar a monoculturas e pastagens com espécies exóticas. Esse avanço reduz a diversidade e enfraquece o funcionamento ecológico.

Mapa mostra a área original do Cerrado, com cerca de 2 milhões de km² – concentrada quase totalmente no Brasil, com pequenas porções na Bolívia e no Paraguai – e sua posição em relação aos demais biomas brasileiros. Crédito: Cássio Cardoso Pereira.

A “floresta invertida”

Uma das características mais marcantes do Cerrado é a chamada “floresta invertida”. Diferentemente das florestas tropicais úmidas, onde a maior parte do carbono está nas copas das árvores, cerca de 90% do carbono do Cerrado fica armazenado no subsolo. Isso ocorre graças a raízes profundas e densas.

Esse sistema subterrâneo funciona como reservatório de carbono e regulador da água. Quando a vegetação é removida, o solo perde capacidade de reter umidade e de absorver carbono. O impacto ultrapassa a paisagem e afeta o clima e a segurança hídrica.

Nem toda restauração, porém, resolve o problema. “Esforços de restauração mal orientados, que se concentram exclusivamente no plantio de árvores exóticas em áreas naturalmente abertas, podem agravar ainda mais esse problema. Isso ressalta a necessidade de estratégias de restauração que priorizem a funcionalidade ecológica e os bancos de sementes nativos, em vez da simples aforestação”, afirma Cássio Cardoso Pereira, docente colaborador e orientador do Programa de Pós-Graduação em Ecologia da Universidade Federal de São João del-Rei. Ele destaca que a recuperação deve respeitar as características originais do ambiente.

O Cerrado é conhecido como “floresta invertida”. Crédito: Cerrado.org via Jardim Botânico DF

Cerrado: um mosaico de paisagens

O Cerrado não é uma paisagem uniforme. Ele reúne um mosaico de campos, savanas, matas, veredas e áreas rochosas. Cada ambiente possui espécies próprias e diferentes níveis de vulnerabilidade, o que exige políticas específicas de conservação.

Os Campos Rupestres, por exemplo, ocupam áreas limitadas e concentram espécies exclusivas. Sofrem pressão da mineração, da invasão de plantas exóticas e do aumento de incêndios. Já as savanas, mais extensas, foram amplamente convertidas em áreas agrícolas.

O fogo é outro fator crítico. Embora algumas espécies sejam adaptadas a queimadas naturais, a maioria dos incêndios atuais é provocada por ação humana e ocorre fora do regime natural. Isso gera degradação acumulativa, inclusive em veredas e áreas alagadas.

O estudo aponta ainda um processo de “extinção silenciosa”. Muitas espécies, especialmente plantas e invertebrados, desaparecem antes mesmo de serem registradas pela ciência. Essa lacuna dificulta a formulação de políticas eficazes.

Sem dados completos, não é possível proteger o que não foi identificado. Os pesquisadores defendem ampliar estratégias para preservar não apenas espécies isoladas, mas também as interações ecológicas que sustentam o solo e a água.

Vista aérea de estrada de terra enrolamento através da vegetação de Cerrado em Brasília. Crédito: Cacio Murilo – Shutterstock

A crise também é hídrica. O Cerrado abastece grandes bacias hidrográficas e aquíferos estratégicos do país. Agricultura irrigada, uso de agrotóxicos e barragens vêm reduzindo o fluxo dos rios e degradando áreas essenciais para a regulação da água.

Paradoxalmente, segundo Pereira, setores como agronegócio e produção de energia, que pressionam o bioma, dependem diretamente desses recursos. Sem proteção adequada, a economia regional e a segurança hídrica ficam ameaçadas.

Hoje, existem 706 Unidades de Conservação no Cerrado, cobrindo apenas 8% da área total. Menos de 3% está sob proteção integral. O Código Florestal exige 20% de Reserva Legal e faixas de preservação permanente de 30 metros, limites considerados insuficientes.

Para evitar o colapso ambiental e garantir abastecimento hídrico, o estudo propõe aumentar a Reserva Legal para pelo menos 35%, ampliar áreas protegidas e adotar rastreabilidade na produção agrícola. A meta é desvincular o crescimento econômico da destruição ambiental e assegurar o futuro climático, hídrico e produtivo do país.

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