Quem não se encanta com as maravilhas do Universo?! Nuvens brilhantes de gás, buracos negros moldando galáxias, estrelas de neutrons girando rapidamente como um farol cósmico, mundos gelados e estrelas que são verdadeiras preciosidades cósmicas! Mas poucas peças desse mostruário de jóias são tão intrigantes quanto as chamadas “estrelas de diamante”, anãs brancas cujo interior se cristalizou formando um imenso diamante lapidado pela gravidade.
A comprovação da existência de estrelas assim foi anunciada há 22 anos. A estrela ficou conhecida como Lucy, uma referência nada casual à canção Lucy in the Sky with Diamonds, dos Beatles. Diferentemente da música, aqui não há psicodelia — apenas física estelar levada ao seu limite mais elegante e, por que não, mais luxuoso.
Lucy, catalogada como BPM 37093 ou V886 Centauri, está localizada a 48 anos-luz de distância, na direção da constelação do Centauro. Trata-se de uma anã branca, o remanescente extremamente denso de uma estrela que já esgotou seu combustível nuclear.
[ Lucy (BPM 37093) – Créditos: Wikisky ]
Estrelas geram energia a partir da fusão de átomos em seu núcleo. Durante grande parte de sua vida, a chamada sequência principal, elas fundem átomos de hidrogênio formando hélio. Quando o hidrogênio acaba, elas passam a fundir hélio, gerando carbono e oxigênio. A gravidade fornece a pressão e a temperatura necessárias para que a fusão aconteça, ou seja, quanto mais massiva a estrela, maior sua capacidade de fundir átomos cada vez mais pesados.
Estrelas semelhantes ao Sol não têm massa suficiente para iniciar a fusão do carbono. Então, quando se esgota o hélio em seu núcleo, a estrela chega ao fim da vida. Mas elas não explodem como supernovas; em vez disso, expulsam suas camadas externas e deixam para trás um núcleo quente e comprimido aproximadamente do tamanho da Terra, mas com metade da massa solar. É matéria tão comprimida que uma colher de chá pesaria toneladas.
Desde meados do século XX, os astrofísicos já suspeitavam que, ao perder calor, o plasma de carbono e oxigênio no núcleo dessas estrelas poderia sofrer uma transição de fase e se organizar numa estrutura cristalina. Essencialmente, isso significa solidificar-se como um gigantesco diamante cósmico. Uma ideia preciosa, mas como provar cientificamente a estrutura interna de uma anã branca?
A história da descoberta de Lucy como uma “estrela de diamante” começa com um método inovador que permitiu testar essa ideia através de uma técnica chamada asterossismologia. A lógica é simples: se estudamos o interior da Terra através dos terremotos, por que não estudar o interior das estrelas a partir dos “sismos estelares”?
[ Curvas de luz medidas pelos observatórios Whole Earth (em 1998 e 1999) e Magellan (em 2003) mostrando a pulsação de Lucy – Créditos: T. S. Metcalfe et al. ]
Claro, não é tão simples implantar um sismógrafo em uma estrela. Mas algumas anãs brancas pulsam levemente, variando seu brilho em padrões extremamente regulares. Essas pulsações funcionam como ondas sonoras atravessando o interior da estrela, e suas características dependem da estrutura interna do objeto — assim como o som de um sino depende de sua composição e formato. Observando cuidadosamente essas variações de brilho, os cientistas conseguem inferir o que acontece dentro da estrela, algo impossível de observar diretamente.
No caso de Lucy, as pulsações revelaram algo extraordinário: os modelos só faziam sentido se grande parte do núcleo já estivesse cristalizada. Estimativas indicam que entre 80% e 90% de sua massa está na forma de carbono sólido estruturado. Ou seja, equivalente a um diamante com cerca de 10 bilhões de trilhões de trilhões de quilates e lapidado pela gravidade. É uma quantidade tão absurda que faria muitos vilões de novela sonharem em ser astronautas.
Felizmente essa preciosidade cósmica está livre da cobiça humana, protegido pela distância astronômica que nos separa. Porque se pudéssemos ignorar pequenos detalhes como gravidade esmagadora e temperatura estelar, e trouxéssemos esse diamante para a Terra, certamente o mercado de pedras preciosas entraria em colapso instantâneo.
[ Ilustração artística mostrando o interior cristalizado de Lucy – Imagem gerada por IA ]
Mas se não quiser ter esse trabalho, de buscar uma estrela de diamante a quase 50 anos luz de distância, basta esperar um pouco. Daqui a cerca de 5 bilhões de anos, nosso Sol também se tornará uma anã branca, e depois de mais uns 2 bilhões de anos, seu núcleo começará a se cristalizar devido ao resfriamento. Será uma valiosa relíquia da estrela que um dia tornou a vida na Terra possível. Infelizmente não haverá mais planetas habitáveis, oceanos ou civilizações para apreciar a joia, mas a física terá completado mais uma de suas obras fabulosas.
Mesmo só podendo apreciá-la de muito longe, a descoberta de Lucy tem um valor científico que vai muito além do encanto da metáfora. A cristalização de anãs brancas afeta diretamente a forma como elas esfriam, liberando calor latente durante o processo, como a água ao congelar. Isso significa que estrelas como ela podem permanecer quentes por mais tempo do que se imaginava, o que influencia estimativas da idade de populações estelares inteiras. Em outras palavras, entender essas “joias” do Universo ajuda a acertar os ponteiros dos relógios cósmicos que medem o tempo das estrelas da Via Láctea e além.
Lucy, portanto, não é apenas uma curiosidade cósmica com um apelido simpático herdado de uma música famosa. Ela representa uma etapa inevitável da evolução estelar, um laboratório natural onde podemos testar teorias sobre matéria em condições impossíveis de reproduzir na Terra. É também um lembrete de que o Universo produz suas próprias joias, não para serem usadas ou admiradas, mas como consequência inevitável do descomunal poder da gravidade.
Quando olhamos para o céu noturno, vemos pontos de luz que, como os diamantes, parecem eternos. Mas cada um deles está em uma trajetória evolutiva complexa, com começo, meio e fim. Algumas dessas histórias terminam em explosões espetaculares; outras, em objetos exóticos como buracos negros ou pulsares. E algumas, discretamente, terminam como diamantes cósmicos silenciosos, esfriando na escuridão ao longo de eras inimagináveis.
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