Chegou ao fim neste domingo 22 o Lollapalooza Brasil 2026 — edição que promete entrar para a história como uma das melhores do festival, tendo agradado gregos e troianos ao longo de seus três dias ensolarados. Durante seu último grande show, liderado pelo rapper Tyler, the Creator, o sucesso era claro: mesclavam-se com naturalidade e pouco atrito todos os fãs das atrações precedentes. Roqueiros que haviam se exaurido dentro das rodas punk agitadas pela banda Turnstile cantavam hits como Are We Still Friends ao lado de garotas que, momentos antes, haviam vestido perucas rosa-choque para prestigiar a ex-influencer Addison Rae, novo fenômeno do pop. Após a programação morna de 2025, que tinha como grande atrativo poucos bons headliners, o festival agora se renova e reafirma aquele velho ditado: a união faz a força.
Antes que Tyler encerrasse a noite, o espírito coletivo também embalou a apresentação de outra headliner: a neozelandesa Lorde. Hoje com 28 anos, ela estourou aos 16 graças à faixa Royals, pela qual se consagrou a voz de uma geração — na prática, duas: seu público engloba tanto millenials quanto a ala mais velha da geração Z, que cresceu a enxergando como modelo de comportamento.
No palco, a estrela apresentou boa parte do disco Virgin, trabalho vulnerável, embalado em uma estética pouco propensa aos excessos. De calça jeans, camiseta rasgada e cara lavada, Lorde comandou um show que é meio-termo entre o que se espera de bandas alternativas e popstars colossais. Apenas dois dançarinos a acompanhavam, buscando fugir do óbvio tanto quanto ela. No lugar de coreografias sincronizadas e polidas, ambos tinham espaço para a experimentação própria da dança contemporânea. Respondendo de acordo, o público dispensou as típicas dancinhas e palmas, trocadas por versos esgoelados de forma visceral.
Autoconsciente, Lorde resumiu o efeito do próprio show com a letra da primeira canção da noite, Hammer: “Eu arranco lágrimas e me pagam para isso”. Se Chappell Roan e Sabrina Carpenter celebraram o hedonismo em suas apresentações no festival, Lorde transformou a ressaca moral em catarse.
Para além dela, a novata Addison Rae também se mostrou um destaque do dia. Dona de apenas um álbum, a americana de 25 anos resgata o pop sensual que transformou Britney Spears em uma celebridades mundial nos anos 2000, mas agrega a ele o verniz do trip-hop — especialmente na intricada High Fashion — e o cuidado com os vocais, cristalinos e bem equilibrados com a faixa de apoio, que se sobressaía apenas durante números de dança precisos.
Tyler, The Creator, por sua vez, comandou o Palco Budweiser e adotou um tom mais brando e repleto de piadas e brincadeiras com os fãs, que se reuniram em coro diversas vezes para elogiar o artista, sob o uníssono grito: “gostoso”. Com um repertório que abrangeu músicas de diversas fases de sua carreira, o rapper apostou também em recursos de pirotecnia que produziam efeitos caóticos de luz e cor.
Durante os intervalos entre uma música e outra, aproveitou para agradecer aos fãs brasileiros. Chegou, inclusive, a mencionar artistas como Gal Costa, Gilberto Gil e Roberto Carlos como grandes inspirações.
Uma boa adição à lista seria o rapper mineiro FBC, que fez show tão cativante quanto polêmico — e bastante politizado — no Palco Flying Fish. Avesso a sutilezas, ele entrou em cena com uma bandeira da Palestina nas mãos e assim ditou o tom de toda a sua perfomance: explicitamente contrária políticos como Donald Trump e Jair Bolsonaro. Ao longo do show, entoou frases como “Parem de matar nossas mulheres”, “Palestina livre” e “Bolsonaro na cadeia”, as quais foram acompanhadas por imagens irônicas e distorcidas dos magnatas do poder ao fundo. Entre hits mais recentes como Cabana Terminal e sucessos de outrora como Delírios, o DJ conduziu uma performance enérgica e bastante conectada com o público, que mesmo assim chegou a recusar — discretamente — o convite de FBC para engatar num “bate cabeça”, ato que era realizado naquele mesmo instante, a alguns metros de distância, durante o show do Turnstile.
A coincidência evidencia: um line-up não precisa ser homogêneo para ser harmônico — e quem ganha com isso são os fãs de música boa, valor que transpõe qualquer fronteira entre tribos. É para isso que existem espaços como o Lollapalooza. Basta esperar que a missão continue a ser cumprida com tamanho louvor no futuro.




