Aos 26 anos, a violinista campista Isabela Rangel tem construído uma trajetória de destaque na música erudita brasileira. Iniciada no violino aos 7 anos de idade, ela encontrou na ONG Orquestrando a Vida, onde permaneceu por cerca de sete anos, uma das bases para sua formação artística. Bacharel em Violino pela UFRJ, Isabela integra atualmente a cena musical baiana, fazendo parte da Orquestra Sinfônica da Bahia. Uma série de concertos está agendada até o fim deste ano. De passagem por Campos, ela falou sobre sua rotina profissional e projetos na música.
Como você foi parar na Bahia?
Em 2020, eu morava no Rio de Janeiro e, com a chegada da pandemia, enfrentei um período de grande incerteza profissional. A orquestra da qual eu fazia parte, que funcionava em regime de bolsas, acabou não renovando os contratos dos músicos, e naquele momento passei a me dedicar exclusivamente às aulas on-line. Paralelamente, meu esposo, na época ainda meu namorado, já vivia em Salvador desde 2017. Diante desse cenário, identificamos a oportunidade de ingressar no programa NEOJIBA como um novo caminho para minha trajetória. Assim, em 2021, nos casamos e tomei a decisão de me mudar para Salvador, iniciando uma nova fase, tanto na vida pessoal quanto profissional.
Como tem sido essa experiência em Salvador?
Vivo em Salvador há cinco anos. A Bahia é um lugar lindo, de pessoas incríveis. Ao longo desse período, tive inúmeras oportunidades, especialmente por estar no programa NEOJIBA, que hoje é um dos projetos de maior prestígio no Brasil e no exterior. Além de oferecer uma estrutura única no país para a formação musical, o programa recebe regularmente músicos de prestígio internacional, com os quais tive o privilégio de estudar e trabalhar ao longo desses anos. Essas experiências foram fundamentais para meu crescimento musical e profissional e me prepararam para conquistar a vaga na OSBA, orquestra onde trabalho atualmente.
Tem ideia de quantos concertos já participou? Quais os mais importantes?
É muito difícil escolher, porque tive muitos momentos marcantes na minha trajetória. Mas alguns se destacam de forma especial. Em 2023, com a Orquestra NEOJIBA, durante a turnê Norte-Nordeste, vivi uma experiência única: além de atuar como spalla, tive o privilégio de solar em cinco concertos, interpretando o Romance de Antonín Dvořák para violino e orquestra. Foi um período de grande crescimento artístico e conexão com o público.
Mais recentemente, em 2025, tive a oportunidade de retornar ao palco como solista, interpretando o primeiro movimento do Concerto para Violino de Jean Sibelius, ao lado da Orquestra NEOJIBA, sob a regência do maestro Ricardo Castro. Uma obra desafiadora e profundamente expressiva, que ocupa um lugar muito especial na minha trajetória e representa, para mim, um importante marco.
Também não posso deixar de mencionar a experiência de atuar como spalla da Orquestra NEOJIBA em palcos extremamente importantes da Europa, incluindo salas icônicas como o Concertgebouw, em Amsterdã, e a Philharmonie de Paris. Estar nesses palcos históricos, por onde passaram alguns dos maiores músicos de todos os tempos, foi algo verdadeiramente inesquecível e transformador.
Quantas orquestras você já fez parte?
Oito orquestras. Em Campos, dentro da Orquestrando a Vida, foram quatro. Fiz todo o percurso formativo dentro da instituição, passando pelos grupos de base até as formações principais da época, que eram a Orquestra Jovem Mariuccia Iacovino e a Orquestra Municipal de Campos. Quando me mudei para o Rio de Janeiro, passei a integrar a Orquestra Cesgranrio e também toquei na Orquestra da Escola de Música da UFRJ, como parte obrigatória do curso de Bacharelado em Violino. Já em Salvador, integrei a Orquestra Juvenil da Bahia, na qual fui spalla por três anos antes de ingressar na OSBA (Orquestra Sinfônica da Bahia), que é a orquestra onde trabalho atualmente.
Como se deu teu ingresso na Orquestra Sinfônica da Bahia?
No final de 2024, foram abertas quatro vagas para violino. Participei do processo seletivo, conhecido na área da música como audição, concorrendo com candidatos de todo o Brasil. Fui selecionada para uma dessas vagas e, assim, passei a integrar a orquestra que tem em torno de 80 músicos sob a regência do maestro Carlos Prazeres. A OSBA é mantida pelo Governo do Estado da Bahia e constitui um corpo artístico estável do Teatro Castro Alves. A partir de 2017, a orquestra passou por um processo de publicização, e sua gestão passou a ser realizada por uma Organização Social (OS).
Esse modelo é considerado um dos mais eficientes na gestão pública da cultura no Brasil, pois permite maior flexibilidade administrativa, agilidade na contratação de profissionais e serviços, além de facilitar a captação de recursos e a execução de projetos artísticos, aspectos que costumam ser mais burocráticos na administração direta.
Assim, embora eu atue em um corpo artístico estável do Estado, os músicos e a equipe da OSBA, com poucas exceções de profissionais que já integravam a orquestra antes da publicização, não possuem vínculo direto com o Estado. Os contratos são, portanto, regidos pela CLT e firmados com a Organização Social responsável pela gestão da orquestra.
Como é sua rotina de violinista na Bahia?
A rotina em orquestras profissionais costuma seguir um padrão bem estruturado. No caso da OSBA, no início de cada ano, ou ainda no final do ano anterior, recebemos toda a programação da temporada, o que nos permite organizar com antecedência o estudo e a preparação do repertório.
A maior parte dos concertos é semanal, envolvendo toda a orquestra. No entanto, também há semanas dedicadas à música de câmara, com formações menores. Esses concertos cumprem um papel artístico, pedagógico e estratégico muito importante. Na música de câmara, a escuta é mais exposta e a responsabilidade individual é ampliada: sem regente e com poucos músicos, cada integrante assume um protagonismo maior, o que fortalece a qualidade coletiva quando retornamos ao repertório sinfônico.
A rotina é bastante intensa. Normalmente, temos ensaios de terça a sexta-feira pela manhã e concertos nos fins de semana. Em períodos de repertório mais complexo, também podemos ter ensaios em dois turnos, manhã e tarde. As segundas-feiras costumam ser reservadas para estudo individual e preparação das obras da semana.
Paralelamente ao meu trabalho na OSBA, também atuo como professora no Programa NEOJIBA, com algumas tardes dedicadas ao ensino dentro do projeto. Além disso, mantenho uma agenda de alunos particulares, com aulas on-line semanais, incluindo alunos vinculados à ONG Orquestrando a Vida. Também tenho uma agenda bastante frequente de eventos corporativos e casamentos, que fazem parte da minha rotina profissional.
É uma agenda exigente, que demanda organização, disciplina e constância, mas, ao mesmo tempo, extremamente gratificante, por me permitir viver plenamente da música e daquilo que considero meu propósito profissional.
Você sente falta de Campos? Como é fazer parte da elite da música erudita na Bahia?
Sinto, sim, muita falta da minha família e dos amigos que ficaram em Campos. Essa é, sem dúvida, a parte mais difícil da distância. Mas, da cidade em si, confesso que não sinto tanta falta. Hoje me sinto muito feliz em Salvador, pela vida que temos construído aqui e, principalmente, pelo ambiente musical ao meu redor.
Tenho o privilégio de conviver com grandes músicos e de contribuir ativamente para a cena musical de uma cidade e de um estado com tanta tradição e relevância artística. Embora Salvador seja historicamente muito associada à música popular, nos últimos anos tem se consolidado também como um importante celeiro de talentos da música sinfônica, o que torna tudo ainda mais estimulante para mim como artista.
A Bahia é conhecida pelos seus músicos e ritmos afro-brasileiros, como samba, axé e outras vertentes. Como observa o interesse pela música clássica em Salvador e na Bahia?
Vejo que, na Bahia, tem acontecido um fenômeno muito interessante nesse sentido. Há indícios de um crescimento no interesse do público baiano pela música de concerto. Não tenho certeza se já foi realizado algum estudo ou levantamento sobre as causas desse movimento, mas tenho algumas hipóteses. Por exemplo, os concertos da Orquestra Sinfônica da Bahia frequentemente apresentam boa ocupação de público. É verdade que a OSBA possui uma forma especial de se comunicar com o público baiano. O maestro Carlos Prazeres é uma figura carismática e bastante admirada.
Além do repertório orquestral tradicional, a orquestra também investe em programas temáticos, como concertos dedicados a trilhas de filmes e à música popular, a exemplo do São João Sinfônico e do Verão da OSBA. Há ainda iniciativas de engajamento, como o OSBAFÃ, um fã-clube organizado — algo ainda incomum no universo das orquestras. Esse conjunto de fatores pode contribuir para a aproximação com o público.
Outro aspecto relevante é o NEOJIBA, programa prioritário do Governo do Estado da Bahia, criado em 2007 pelo maestro Ricardo Castro. Ao longo de sua trajetória, o programa já atendeu dezenas de milhares de crianças, adolescentes e jovens por meio do ensino e da prática musical coletiva, consolidando-se como uma referência em inovação, inclusão e transformação social por meio da música.
A principal orquestra do programa, a Orquestra NEOJIBA, da qual tive o privilégio de atuar como spalla por três anos, tem se destacado entre as orquestras jovens brasileiras. Com inúmeras turnês internacionais, já se apresentou em alguns dos palcos mais importantes dos Estados Unidos e da Europa, além de ter recebido críticas positivas da imprensa especializada internacional, sendo, por vezes, comparada a orquestras de alto nível mundial.
Em 2026, realizará sua décima turnê internacional, com concertos na Alemanha e na China, o que pode representar um marco importante para uma orquestra jovem brasileira em circulação internacional. Além do reconhecimento artístico, o NEOJIBA tem cumprido muito bem o papel social para o qual foi criado. Com 13 núcleos espalhados por toda a Bahia, hoje é comum caminhar por Salvador, tanto em bairros nobres quanto em bairros populares, e também por cidades do interior, e encontrar crianças e adolescentes do programa com suas camisetas coloridas, carregando instrumentos como violinos, fagotes e oboés.
Trata-se de uma mudança significativa no tecido social. Nesse sentido, o NEOJIBA contribui para levar o interesse pela música clássica para dentro das casas e do cotidiano de muitas famílias baianas, o que provavelmente está relacionado ao aumento do interesse pela música de concerto no estado.
Você é casada com o trompetista Raphael Elias, que também é de Campos. Como conciliam agendas?
Ele é bacharel em Trompete pela Universidade Federal da Bahia e realizou aperfeiçoamento pedagógico na Haute École de Musique de Genève. Atualmente, Raphael ocupa o cargo de coordenador pedagógico da área de trompetes do NEOJIBA. Também atua como treinador e formador na Academy for Impact through Music, uma academia sediada no Principado de Liechtenstein que oferece formação para professores de música com foco em impacto social, conectando programas e profissionais de mais de 20 países ao redor do mundo. Além disso, integra a equipe de professores que trabalha na implementação da primeira grande orquestra sinfônica de Angola, a futura Orquestra Sinfônica Nacional de Angola.
Vocês são muito jovens e vieram da periferia de Campos. O que representa a música para educar e formar cidadãos?
Acredito profundamente que a música, quando feita com excelência e propósito, é uma ferramenta extremamente poderosa de transformação de vidas. Estamos cada vez mais convictos de que as crianças e a juventude brasileira têm um potencial imenso. O que muitas vezes falta não é talento, mas acesso e oportunidade.
Nós somos prova disso. Tivemos a oportunidade de sermos alcançados por um projeto que, por meio da música, mudou completamente o rumo das nossas vidas. É justamente por isso que hoje temos como propósito ser ponte para que outras crianças e jovens também tenham essa mesma chance.
A música transforma não apenas tecnicamente, mas também humanamente. Ela nos torna mais sensíveis, mais disciplinados e mais conscientes. Nos ensina a escutar o outro e a nós mesmos, desenvolve o pensamento crítico e amplia nossa forma de enxergar o mundo.
A partir disso, abre caminhos concretos: gera oportunidades, amplia horizontes e pode, inclusive, se tornar uma profissão. Mais do que formar músicos, o que me move é a possibilidade de contribuir para a transformação da vida dos meus alunos, assim como a música transformou a minha.
Como se sente ao inspirar crianças e adolescentes?
É muito gratificante. Como violinista, busco emocionar e criar conexão com o público. Então, ver crianças e adolescentes se interessando mostra que isso está acontecendo. Saber que posso inspirá-los dá ainda mais sentido ao meu trabalho e me motiva a seguir compartilhando a música com verdade.
Você tem planos para o futuro na música?
Tenho planos contínuos de crescimento como musicista, porque não gosto de me acomodar. Busco participar de festivais, estudar com violinistas renomados e, em um futuro próximo, pretendo fazer um mestrado. Tudo isso faz parte do caminho natural de quem deseja evoluir e ampliar suas possibilidades dentro da música, incluindo novas experiências em orquestras.
Qual o maior trunfo de um violinista?
Acho que não existe um único “maior trunfo”. Solar com uma orquestra e ter a técnica para interpretar os grandes concertos é, sem dúvida, uma conquista marcante. Mas, para mim, o mais especial é a música de câmara: estar em um grupo de altíssimo nível, em sintonia, tocando com liberdade, escuta e emoção, e conseguir realmente comunicar algo ao público. Isso é o que dá mais sentido a tudo.
Você tem compositores preferidos e referências?
É difícil escolher favoritos, porque o repertório é muito rico. Mas tenho um carinho especial pela música barroca, e Johann Sebastian Bach é, sem dúvida, um dos meus compositores preferidos. Sempre recomendo escutar a Chaconne da Partita nº 2 para violino solo. É uma obra extraordinária. Como inspirações, admiro muitos violinistas, especialmente grandes nomes como Yehudi Menuhin, Jascha Heifetz e Itzhak Perlman, além de artistas mais atuais, como Augustin Hadelich e Janine Jansen. Recentemente, também tive contato com o trabalho de Liviu Prunaru, que é uma grande referência. E tive a oportunidade de conhecer músicos incríveis pessoalmente, como Midori Goto e David Grimal, que também me inspiram muito.
Alguma obra que te desafiou?
Para mim, geralmente a última obra que estou estudando é sempre a mais desafiadora, porque estamos em constante evolução e sempre há algo a aperfeiçoar, mesmo em peças que já tocamos. Mas uma obra que me marcou bastante nesse sentido foi o primeiro movimento do Concerto para Violino de Jean Sibelius, que exigiu muito de mim, tanto tecnicamente quanto musicalmente.
Ser mulher na música é difícil?
Sim, pode ser desafiador. Já passei por momentos de comparação e insegurança, principalmente em relação a colegas homens, o que às vezes gerava uma sensação de não ser suficiente. Com o tempo, fui amadurecendo, trabalhando minha confiança e entendendo o meu valor como musicista. Acredito que ainda existam questões a serem superadas, mas também vejo mudanças positivas e mais espaço para diálogo e respeito.
O que diria para quem quer seguir na música?
Diria que é um caminho que exige muita dedicação. É preciso estudar bastante, lidar com a competitividade e estar sempre se reinventando, com criatividade e abertura para aprender. Mas, ao mesmo tempo, quando há paixão e compromisso, trabalhar com música se torna extremamente gratificante. Fazer o que se ama traz um sentido especial à vida, desde que se mantenham o foco, a disciplina e a humildade ao longo do caminho.
O post Isabela Rangel, a violonista que saiu de Campos para a Bahia apareceu primeiro em J3News.




