Dolly Parton foi muito mais do que a cantora loira de cabelo armado, maquiagem pesada e voz inconfundível que escreveu algumas das músicas mais famosas da história. Por trás dos brilhos, dos vestidos e dos grandes sucessos havia uma mulher que usou parte da fortuna e da fama para ajudar crianças, estudantes, famílias pobres, pessoas pretas, pacientes e vítimas de tragédias.
A cantora e compositora morreu nesta terça-feira, 25 de agosto, aos 80 anos, em Nashville, no Tennessee, Estados Unidos. A equipe de Dolly confirmou que ela enfrentou uma breve batalha contra um câncer. O tipo da doença não foi divulgado. Ela morreu cercada por pessoas da família no Vanderbilt-Ingram Cancer Center.
E até depois da morte Dolly deixou uma surpresa para os fãs: uma música inédita, gravada anos atrás, continua trancada em uma cápsula do tempo e, se o plano original for mantido, só poderá ser conhecida daqui a quase duas décadas.
A mulher por trás de “I Will Always Love You”
Dolly escreveu “I Will Always Love You” nos anos 1970 como uma despedida profissional do cantor e apresentador Porter Wagoner, com quem trabalhava.
Anos depois, Elvis Presley quis gravar a música. Dolly ficou entusiasmada, mas mudou de ideia quando o empresário do cantor, Colonel Tom Parker, exigiu metade dos direitos autorais da composição.
Ela disse não. Foi uma decisão difícil naquele momento, mas que mudaria a vida dela anos depois. Em 1992, Whitney Houston gravou “I Will Always Love You” para o filme “O Guarda-Costas”. A interpretação se tornou um fenômeno mundial.
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10 milhões de dólares
A versão de Whitney rendeu a Dolly uma fortuna em direitos autorais. Estimativas apontam que ela recebeu pelo menos US$ 10 milhões em royalties durante os anos 1990.
E o que Dolly fez com parte desse dinheiro também virou história. Ela comprou um grande complexo comercial em uma região de Nashville que, naquela época, era predominantemente ocupada por famílias e comerciantes negros.
Dolly explicou anos depois que escolheu o local justamente por causa de Whitney. Ela gostava de pensar no imóvel como “a casa que Whitney construiu”.
Dolly entregou o Grammy a Whitney
A gravação de Whitney também proporcionou uma cena simbólica.
Em 1994, Dolly Parton subiu ao palco do Grammy ao lado do produtor David Foster para entregar a Whitney Houston o prêmio de Melhor Performance Vocal Pop Feminina por “I Will Always Love You”.
Whitney agradeceu a Dolly publicamente pela composição.
A música também ganhou o Grammy de Gravação do Ano, enquanto a trilha sonora de “O Guarda-Costas” levou o prêmio de Álbum do Ano.
US$ 500 para os alunos não abandonarem a escola
Muito antes de algumas das grandes doações que ficaram conhecidas mundialmente, Dolly já tentava encontrar maneiras criativas de ajudar os jovens da região onde nasceu.
Filha de pai analfabeto, ela criou em 1998 a Dollywood Foundation para melhorar a educação em Sevier County, no Tennessee. Pouco depois surgiu uma ideia diferente: o Buddy Program.
Estudantes da sétima e da oitava séries deveriam formar duplas e assumir o compromisso de ajudar um ao outro a permanecer na escola até a formatura. Se os dois concluíssem o ensino médio, cada estudante receberia US$ 500 de Dolly.
Taxa de abandono escolar caiu
E ela não ficou apenas mandando dinheiro de longe.
Segundo a própria Dollywood Foundation, Dolly entregou pessoalmente cheques de US$ 500 aos estudantes que cumpriram o compromisso.
O resultado foi impressionante: a taxa de abandono escolar entre aquelas turmas caiu de 35% para apenas 6%.
A ideia que virou uma biblioteca para milhões de crianças
Em 1995, Dolly criou aquela que se tornaria uma das maiores marcas da vida filantrópica dela: a Imagination Library.
A inspiração veio do próprio pai, Lee Parton, que não sabia ler nem escrever. Dolly queria que crianças tivessem uma oportunidade que o pai dela não teve.
O programa começou em Sevier County e passou a enviar gratuitamente um livro por mês para crianças desde o nascimento até os 5 anos. O projeto cresceu para outros estados e depois atravessou fronteiras.
Hoje, a Imagination Library já distribuiu mais de 300 milhões de livros e alcançou crianças em vários países.
US$ 1 milhão para a vacina contra a Covid
A generosidade de Dolly também chegou à ciência.
Em 2020, ela doou US$ 1 milhão ao Vanderbilt University Medical Center para pesquisas sobre o coronavírus.
Parte desses recursos ajudou trabalhos ligados ao desenvolvimento da vacina da Moderna contra a Covid-19.
E não foi a única doação milionária para a saúde.
Dolly também destinou US$ 1 milhão ao Monroe Carell Jr. Children’s Hospital at Vanderbilt e apoiou projetos de atendimento à saúde da mulher no Tennessee.
Ajuda para famílias que perderam tudo
Quando incêndios devastaram a região de Sevier County, em 2016, Dolly criou o My People Fund.
O programa passou a entregar dinheiro diretamente às famílias que perderam as casas.
Foram milhões de dólares distribuídos para centenas de famílias reconstruírem a vida. Segundo levantamentos posteriores, a iniciativa mobilizou aproximadamente US$ 12 milhões em ajuda.
Dolly também ajudou vítimas de enchentes, furacões e outros desastres ao longo dos anos.
A parceria inesquecível com Kenny Rogers
Na música, Dolly também ajudou a transformar uma canção em um dos maiores sucessos da carreira de Kenny Rogers.
“Islands in the Stream” inicialmente seria gravada apenas por ele.
Dolly estava no mesmo estúdio quando foi chamada para transformar a música em um dueto. Funcionou.
Lançada em 1983, a canção chegou ao primeiro lugar das paradas pop, country e adult contemporary dos Estados Unidos e iniciou uma parceria e amizade que durariam décadas.
Madrinha de Miley Cyrus
A influência de Dolly atravessou gerações.
Miley Cyrus, uma das grandes estrelas da música pop atual, é afilhada de Dolly e sempre falou publicamente da importância dela em sua vida e carreira.
Dolly também apareceu em “Hannah Montana”, série que ajudou a transformar Miley em estrela mundial.
Defensora do respeito
Dolly também conquistou uma relação especial com o público LGBTQIA+.
Ao longo dos anos, defendeu a igualdade e apoiou publicamente direitos como o casamento entre pessoas do mesmo sexo.
Após a morte dela, organizações LGBTQIA+ lembraram justamente essa defesa da inclusão e do respeito às diferenças.
A última música ainda está trancada
E Dolly preparou uma espécie de último presente musical. Em 2015, durante a abertura do DreamMore Resort, em Dollywood, ela escreveu e gravou uma música inédita chamada “My Place in History”.
A gravação foi colocada dentro de uma caixa de madeira junto com equipamentos capazes de reproduzi-la no futuro.
A cápsula deveria permanecer fechada por 30 anos. O plano original determina que ela seja aberta em 2045, quando o resort completar três décadas. Dolly estaria a poucos meses de completar 100 anos.
Ela chegou a admitir que tinha vontade de abrir a caixa antes porque considerava a música muito boa. Com a morte da cantora, fãs começaram a se perguntar se a gravação será liberada antes.
Até esta quarta-feira, 26 de agosto, Dollywood não anunciou nenhuma mudança no plano. As informações divulgadas após a morte continuam apontando para a abertura da cápsula em 2045.
Nova York ficou rosa
As homenagens começaram poucas horas depois da confirmação da morte.
Em Nova York, o Empire State Building ficou iluminado na cor rosa na noite de terça-feira para homenagear Dolly.
A iluminação aconteceu das 21h25 às 22h25, uma referência ao sucesso “9 to 5”.
O prédio iluminado de rosa também homenageou o trabalho da Dollywood Foundation e da Imagination Library.
A família pediu que quem quiser homenageá-la faça doações justamente para a Imagination Library, o projeto que Dolly dizia estar entre os mais importantes da vida dela.




