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Do ‘divórcio’ à guerra: a cronologia da briga entre OpenAI, Anthropic e o Pentágono

O Vale do Silício viveu as 48 horas mais frenéticas de sua história recente entre 26 e 27 de fevereiro de 2026. O que começou como uma disputa contratual terminou com uma empresa americana declarada como “risco à segurança nacional” (algo sem precedentes nos Estados Unidos). E sua maior rival instalada no centro do comando militar do país.

O cabo de guerra começou quando o CEO da Anthropic, Dario Amodei, declarou que “não poderia, em sã consciência, acatar” as exigências do Pentágono. O Departamento de Defesa (também chamado de Departamento de Guerra) exigia a remoção de salvaguardas do Claude, modelo de inteligência artificial (IA) da empresa, contra vigilância doméstica em massa e uso em armas letais autônomas.

A resistência de Amodei desencadeou uma ofensiva inédita. Enquanto o presidente dos EUA, Donald Trump, atacava a Anthropic nas redes sociais, o Secretário de Defesa, Pete Hegseth, designava a empresa como “risco à cadeia de suprimentos”. Na prática, o rótulo é uma tentativa de “assassinato corporativo”, algo historicamente reservado a adversários estrangeiros, como a China.

Horas após a Anthropic virar “empresa non grata” nos EUA, o CEO da OpenAI, Sam Altman, anunciou um acordo com o Pentágono no qual a empresa aceitava os termos de “todo uso lícito” que sua rival tinha rejeitado. Em dois dias, a fronteira dessa tecnologia se dividiu entre dogmatismo da ética e pragmatismo do poder. 

Agora, com o embate nos tribunais federais e o Claude no topo de lojas de aplicativos mundo afora, o caso se tornou o primeiro grande teste constitucional sobre quem realmente controla a IA: os cientistas que a criam ou o governo que a compra.

A semente da discórdia (2021 – janeiro de 2026)

As raízes da “novela” entre Anthropic, OpenAI e Pentágono estão num divórcio ideológico ocorrido em 2021, relembra o jornal New York Times. Naquele ano, Dario Amodei, então vice-presidente de pesquisa da OpenAI, e sua irmã Daniela Amodei lideraram uma debandada de pesquisadores para fundar a Anthropic.

O motivo foi uma divergência crucial com Sam Altman. Para os irmãos Amodei, a OpenAI estava priorizando a comercialização rápida da tecnologia em detrimento da segurança e da ética.

Dario Amodei, então vice-presidente de pesquisa da OpenAI, e sua irmã Daniela Amodei lideraram uma debandada de pesquisadores em 2021 para fundar a Anthropic em seguida (Imagem: Thrive Studios ID/Shutterstock)

Enquanto a OpenAI buscava a liderança do mercado, a Anthropic se posicionava como uma empresa de “benefício público”, guiada por uma “constituição” interna para garantir a segurança dos seus modelos de IA.

Apesar dessa cautela, a Anthropic não era avessa ao governo dos EUA. Em julho de 2025, a startup assinou um acordo de dois anos e US$ 200 milhões (pouco mais de R$ 1 bilhão) com o Pentágono, relembra a Forbes.

Graças a uma parceria com a Palantir, o Claude se tornou o preferido para soluções corporativas. E a primeira IA a ter autorização para ser usada em sistemas militares confidenciais. Inclusive, durante esse período, a Anthropic estava à frente da OpenAI na integração com redes confidenciais do governo (você vai entender melhor o que é isso daqui a pouco).

No entanto, o Secretário de Defesa publicou um memorando, em 9 de janeiro de 2026, que mudou o clima de cooperação. Hegseth exigiu: 1) a integração da IA em todas as operações militares americanas; e 2) o fornecimento de tecnologia sem as restrições éticas impostas por termos de serviço das empresas.

Para reforçar a mensagem, cartazes gerados por meio de IA com a imagem de Hegseth foram espalhados pelo Pentágono com a frase: “Eu quero que você use a IA”, segundo o The New York Times.

Esse ultimato forçou a reabertura imediata de todos os contratos existentes. Isso colocou a Anthropic, companhia com a tecnologia mais usada nesse contexto naquele momento, na mira das negociações.

O gatilho venezuelano e o ultimato americano (fevereiro de 2026)

O equilíbrio frágil entre Anthropic e Pentágono se rompeu em 15 de fevereiro de 2026. Neste dia, o Wall Street Journal revelou que a Anthropic tinha manifestado preocupação à Palantir sobre o papel que suas tecnologias tinham desempenhado na operação militar que capturou o presidente da Venezuela, Nicolás Maduro. Em outras palavras (e aproveitando a manchete do WSJ): o Pentágono tinha usado o Claude na captura de Maduro.

O Claude foi usado na operação dos EUA que capturou o presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, revelou o Wall Street Journal em fevereiro (Imagem: Chip Somodevilla e StringerAL/Shutterstock)

Para o CEO da Anthropic, o ocorrido na Venezuela transformou riscos hipotéticos em realidade. Então, a empresa começou a expressar preocupações formalmente. A companhia alegou que sua IA não era confiável o suficiente para operar drones autônomos ou tomar decisões letais sem supervisão humana direta.

A Anthropic passou a exigir cláusulas contratuais que proibissem explicitamente o uso de sua tecnologia para vigilância doméstica em massa. E o desenvolvimento de armas autônomas letais.

O governo ficou furioso com isso. Para Hegseth e o Diretor de Tecnologia do Pentágono, Emil Michael, a resistência simbolizou uma tentativa de uma empresa privada ditar a política de segurança nacional americana, relembra o NYT.

Em 24 de fevereiro, num encontro tenso no Pentágono, que durou menos de uma hora, o Secretário de Defesa deu um ultimato (aquele que venceria às 17h de 27 de fevereiro): a Anthropic deveria aceitar o termo de “todo uso lícito” ou o contrato de US$ 200 milhões seria cancelado. Esse termo daria ao governo carta branca para usar a IA em qualquer cenário permitido por lei.

Então, o impasse descambou para a esfera pessoal. O Diretor de Tecnologia do Pentágono chamou Amodei de “mentiroso” e o acusou o CEO de ter “complexo de Deus”. Isso no lugar mais público da internet, tá? O X/Twitter.

It’s a shame that @DarioAmodei is a liar and has a God-complex. He wants nothing more than to try to personally control the US Military and is ok putting our nation’s safety at risk.

The @DeptofWar will ALWAYS adhere to the law but not bend to whims of any one for-profit tech… https://t.co/ZfwXG36Wvl

— Under Secretary of War Emil Michael (@USWREMichael) February 27, 2026

48 horas frenéticas e o ‘golpe’ da OpenAI (26 – 27 de fevereiro)

Sob pressão, Amodei publicou um comunicado no site da Anthropic em 26 de fevereiro. No texto, o CEO diz que a empresa “não poderia, em sã consciência, acatar” as exigências do governo. O executivo argumentou que, embora apoiasse a defesa das democracias, a tecnologia atual ainda era perigosa demais para ser usada sem as salvaguardas que o Pentágono queria remover.

Na tarde do dia seguinte, 27 de fevereiro, o embate escalou para o nível presidencial. Trump postou, na rede social Truth Social, que os EUA nunca permitiriam que uma empresa de “IA radical de esquerda” ditasse como os militares deveriam lutar. Na postagem, Trump ordenou que as agências federais parassem de usar o Claude em até seis meses.

Às 17h14 (13 minutos após o deadline dado pelo Pentágono), Hegseth executou o que especialistas consultados pela imprensa internacional chamaram de “tentativa de assassinato corporativo”: designou a Anthropic como “risco à cadeia de suprimentos para a segurança nacional”. Era a primeira vez na história dos EUA que tal rótulo, normalmente reservado para adversários estrangeiros, era aplicado a uma empresa americana.

This week, Anthropic delivered a master class in arrogance and betrayal as well as a textbook case of how not to do business with the United States Government or the Pentagon.

Our position has never wavered and will never waver: the Department of War must have full, unrestricted…

— Secretary of War Pete Hegseth (@SecWar) February 27, 2026

Enquanto o setor jurídico da Anthropic corria para preparar processos, a OpenAI fazia sua jogada. Altman, que vinha mantendo conversas com o Pentágono desde 25 de fevereiro, aproveitou o vácuo deixado pela rival.

Às 22h de 27 de fevereiro, o CEO da OpenAI anunciou que a empresa tinha assinado seu próprio contrato para uso em redes confidenciais do governo. E, diferentemente da Anthropic, a desenvolvedora do ChatGPT tinha aceitado o termo de “todo uso lícito”. A companhia alegou que manteria suas salvaguardas por meio de “camadas de segurança técnicas” e classificadores internos, em vez de restrições contratuais rígidas.

Rede confidencial: ambiente de computação isolado da internet pública (conhecido como air-gapped ou nuvem soberana). É um “bunker digital” onde os dados do governo e os modelos de IA operam em servidores físicos controlados, protegidos por criptografia de alto nível e protocolos de acesso restrito. O objetivo é garantir que informações de segurança nacional sejam processadas sem risco de vazamento para a web ou interceptação por potências estrangeiras.

Ou seja: em menos de 48 horas, a Anthropic passou de líder em sistemas militares para pária do Estado, enquanto sua maior rival assumia o posto como o novo “braço tecnológico” do Departamento de Guerra dos EUA.

Efeito bumerangue e revolta de talentos (março de 2026)

A tentativa de “assassinato corporativo” do Pentágono se transformou em vitória de relações públicas para a Anthropic em poucos dias. Enquanto o governo tentava cortar o oxigênio financeiro da startup, o público reagiu. E o Claude chegou se tornou o aplicativo mais baixado na App Store da Apple em 16 países, superando seu rival, o ChatGPT, pela primeira vez.

Além da loja de aplicativos de uma gigante, o apoio apareceu em lugares mais inesperados – desde mensagens de gratidão escritas em giz na calçada da sede da empresa em São Francisco até o endosso público de Katy Perry.

Pressionado, Altman foi ao X/Twitter admitir que o anúncio do contrato entre OpenAI e Pentágono teve cara de “oportunista e desleixado” (Imagem: Mijansk786/Shutterstock)

Enquanto isso, a OpenAI entrava em modo de controle de danos. O anúncio da noite de 27 de fevereiro gerou uma reação furiosa entre seus próprios funcionários, que questionaram se a empresa tinha cedido à pressão do governo e abandonado suas promessas de segurança para não perder o contrato.

Pressionado, Altman foi ao X/Twitter, em 2 de março, admitir que o anúncio teve cara de “oportunista e desleixado”. No mesmo dia, a OpenAI fez uma manobra rara: anunciou uma emenda ao seu contrato com o Pentágono. Na prática, a empresa adicionou termos que proibiam explicitamente o uso da IA para vigilância doméstica intencional de americanos.

Porém, a manobra não impediu uma sangria de talentos, conforme repercutido pelo Wall Street Journal. Pesquisadores de alto escalão, como Caitlin Kalinowski, da divisão de robótica da OpenAI, pediram demissão citando divergências de princípios. Um golpe duro foi a saída de Max Schwarzer, que era vice-presidente de pesquisa da empresa. Em postagem no X/Twitter, ele anunciou sua ida justamente para a Anthropic.

Além disso, o movimento de apoio à Anthropic transbordou as fronteiras das empresas. Em 19 de março, um grupo de 37 funcionários (19 da OpenAI e 18 do Google DeepMind) protocolou uma petição judicial em apoio à empresa de Amodei.

O texto argumenta que permitir o uso de represálias financeiras pelo Pentágono para coagir laboratórios de IA a abandonar salvaguardas éticas criaria um precedente perigoso para a competitividade e segurança do setor.

‘Novela’ vai para a Justiça dos EUA (9 – 11 de março de 2026)

A “novela” chegou aos tribunais em 9 de março de 2026, quando a Anthropic protocolou dois processos contra o Departamento de Defesa. A empresa alega que a designação de “risco à cadeia de suprimentos” foi um ato de punição motivado puramente por questões ideológicas.

Segundo a empresa, o caso foi uma tentativa de silenciar suas convicções éticas, o que teria violado seus direitos garantidos pela Primeira Emenda da Constituição dos EUA. Essa emenda protege a liberdade de expressão e impede retaliações do governo por motivações ideológicas.

A Anthropic protocolou dois processos contra o Departamento de Defesa dos EUA em 9 de março (Imagem: Koshiro K/Shutterstock)

“O caso da Anthropic é muito sólido”, disse Alan Rozenshtein, professor de Direito na Universidade de Minnesota, ao New York Times. Especialistas jurídicos consultados pelo jornal disseram que o caso é robusto justamente porque o rótulo de “risco” é historicamente reservado a adversários estrangeiros. E não há precedentes para sua aplicação contra uma empresa americana por disputas contratuais.

Na quarta-feira (11), a empresa de Amodei anunciou a criação do Anthropic Institute. Liderado pelo cofundador Jack Clark, o novo think tank interno vai se debruçar sobre implicações de larga escala da IA. Por exemplo: seu impacto na economia, no sistema jurídico e na estabilidade financeira.

Atualmente, a “novela” não tem um ganhador, mas sim uma pergunta que o Congresso americano ainda não conseguiu responder: num vácuo de leis federais sobre IA, quem deve deter a palavra final sobre o uso da força letal – generais, políticos ou desenvolvedores da tecnologia?

Para Dario Amodei, que há anos pede que seus funcionários leiam sobre o Projeto Manhattan, o momento de confronto que ele previu, enfim, chegou.

Referências

Quer mergulhar em algum ponto desta história? Confira abaixo destaques da cobertura do Olhar Digital (em ordem cronológica de publicação – ou seja, da mais antiga para a mais recente):

Anthropic: Trump quer empresa fora do governo

OpenAI: Sam Altman anuncia acordo com Pentágono após “expulsão” da Anthropic

Como o Pentágono usou o Claude no Irã enquanto Trump bania a Anthropic

Ameaça real? Pentágono rotula Anthropic como “risco” e gera impasse

Fala AI: OpenAI aproveitou ‘vácuo’ da Anthropic para fornecer IA aos EUA

Rivalidade entre OpenAI e Anthropic se intensifica e pode moldar futuro da IA

Após embate com a Anthropic, EUA querem regras para permitir uso irrestrito de IAs

Anthropic desafia Pentágono: a briga judicial que pode mudar o futuro da IA

(Essa matéria também usou informações de The Guardian e The Verge.)

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* Todas as notícias são retiradas de fonte de sites conforme informado na última linha “apareceu primeiro em …”

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