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Digão celebra nova fase do Raimundos e reforça: ‘Estou fora de esquerda ou direita”

Por Guilherme
Por Guilherme

Vocalista da banda Raimundos desde que Rodolfo Abrantes abandonou a posição em 2001, Digão diz sem pestanejar que a banda hoje passa por seu melhor momento. Agora composta pelos músicos Marquim, Caio Cunha e Jean Moura, ela se apresenta no festival João Rock neste sábado, 1, em Ribeirão Preto e toca sucessos como Mulher de Fases junto ao repertório mais fresco do disco XXX, lançado em maio de 2025 e adornado por colaborações espirituosas com Mike Muir e Zenilton.

Aos 55 anos, o músico se dá a missão de preservar o senso de humor de sempre e respeitar o que acredita ser o bom e velho rock, escanteando polêmicas sobre o passado da banda e sua orientação política. Em entrevista a VEJA, ele descreve a fase atual do grupo, detalha sua reaproximação ao antigo parceiro musical, esclarece o que espera da governança brasileira e argumenta que a era do politicamente correto está chegando ao fim:

O Raimundos já participou de várias edições do festival João Rock. Como é a interação com o público por lá? Gosto muito de Ribeirão Preto, e a cidade gosta bastante do Raimundos. O João Rock é muito importante para o calendário da música brasileira, e lembro que nosso penúltimo show por lá foi uma catarse. É muito bonito ver que, depois de tantos anos e tantas mudanças, a banda continua relevante. Além disso, foi lá que eu pedi minha esposa em casamento. O festival deu muita sorte para mim.

Você é o único membro original que permanece no grupo. Como descreveria a banda de hoje? É muito louco, passamos por tudo que uma banda pode passar: mudança de vocalista, troca de formação, perda de um membro… já fomos colocados muito à prova e, agora, estamos unidos. Dá pra sentir isso no próprio som da banda, que anda mais pesado e coeso. Todo mundo ali ama o que faz, como se ainda estivéssemos começando. Acho que é o melhor momento do Raimundos.

Você sempre assumiu a admiração pelo Suicidal Tendencies e colaborou com Mike Muir em 2025. Como se deu esse contato? Essa história dá um filme. Eu tenho o riff principal da música desde os anos 2000, e cheguei a oferecer ele para o Chorão por volta de 2011. Ele topou, mas o tempo passou e ele morreu em 2013. Depois disso, eu completei o instrumental, mas sem letra. Passados mais uns anos, encontrei um amigo de composição — o Victor Mendes Neves, que me ajudou em todo o último disco do Raimundos. Foi ele quem começou a escrever o que seria cantado, e aí eu já consegui engatar e escrever também. Chegou 2020 e eu me reaproximei do Rodolfo. Mandei a faixa para ele e o convidei para participar. Ele gostou, mas negou e não falou mais nada. Por fim, o Alex Palaia, que é promotor de shows, me conectou com o Mike Muir. Quando eu ouvi o resultado, não acreditei. Imagina voltar atrás e contar para o Digão de 15 anos, fã do Suicidal, que o Mike Muir estaria cantando uma música que ele fez? 

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Apesar do convite não ter sido aceito dessa vez, ainda acredita que há chance de uma nova colaboração com Rodolfo? Eu realmente não sei. Está nas mãos de Deus e quero deixar que isso aconteça no tempo dele. Não precisamos nos precipitar. Também tem que ser da vontade do Rodolfo. Temos que estar muito a fim e muito amarrados, aí vai funcionar.

O Raimundos fez parte de uma cena que manteve o interesse do público pelo rock após o êxito dos anos 1980. Hoje, vê algo similar acontecendo com a nova geração? É impressionante a renovação de público nos shows. Tenho visto garotada que ainda está no fim da adolescência, todos com camiseta de banda, muitas com a estampa do Raimundos. Vários garotos até pedem pra subir no palco e tocar com a gente. Vejo a cena do rock mais orgulhosa, só que isso não aparece na mídia. Estou curioso para ver o que vai surgir disso e falo para a galera: se querem criar alguma coisa, a hora é agora, não tenham medo. 

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Parte da cena acredita que a juventude de hoje não se conecte tanto com o rock ou o punk por ter crescido em meio ao politicamente correto. Como encara esse fenômeno? Eu estou vendo mais pessoas que olham para isso e pensam que o policiamento do comportamento alheio não é tão legal. O legal é ser livre e curtir o rock sem preconceito. Essas pessoas dizem que combatem o preconceito, mas são totalmente preconceituosas. Não aceitam que a cena pode ter gente que pense diferente e impõem que o rock é só da esquerda. Se isso fosse verdade, teríamos que excluir várias bandas importantíssimas, como o Metallica. Essa pauta é um apelo de enfraquecimento ao rock. Tem que parar com essa besteira e a galera tem que se juntar. Eu, particularmente, estou fora dessa história de direita ou esquerda. Quero um Brasil com oportunidade, uma nação unida. 

Nas últimas eleições, você disse que o que queria para a política não existia no Brasil. Isso mudou? Estou observando mais do que falando. É preciso ter cuidado e entender o que está acontecendo. Fato é que não vou votar nesse presidente que está aí, mas não quero me meter nessa conversa não, já me meti demais. Sou do rock e canto para levar alegria ao povo, que é plural.

Para além da política, você foi crítico à série documental Andar na Pedra: A História dos Raimundos. O que lhe desagradou? O documentário tem cinco episódios e viver é fazer o meu sexto. A banda está em um momento maravilhoso. Sobre a produção em si, acho que ela excluiu pessoas importantes. Faltou a minha esposa, que foi quem estimulou a reconciliação com o Rodolfo. Ela me fez abrir os olhos e perceber que eu já tinha o perdoado. Faltou também o pessoal da banda de hoje, que toca com a gente há uns 20 anos, e outras pessoas que conviveram conosco muito mais do que alguns entrevistados. Enfim, nada é perfeito. No fim das contas, quem não gostava de mim vai continuar não gostando, mas tem quem viu o documentário e enxergou tudo o que eu já passei com a banda, e como eu não participei do documentário com a intenção de dizer coisas ruins, porque tudo aquilo já passou, mas cada um é cada um.

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Depois de ter lançado XXX em 2025, já pretendem disponibilizar material novo, ou o foco é na turnê? Já temos um disco basicamente pronto, porque fizemos 28 músicas para o XXX e lançamos só 11, mas também não precisamos ficar nessa loucura de divulgar música nova toda hora. O ouvinte de rock prioriza álbuns bem pensados, porque viemos da cultura da mídia física, e queremos manter isso.

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