A cheia do Rio Paraíba do Sul voltou a impor medo, perdas e incertezas a moradores de comunidades ribeirinhas de Campos. Nesta segunda-feira (2), a equipe de reportagem do J3News esteve em dois pontos atingidos pela elevação do nível do rio: a comunidade da Ilha do Cunha, e a comunidade da Coroa, ambas localizadas na região dos bairros Pecuária e Cajú.
Segundo o monitoramento do Serviço Geológico do Brasil, o nível do Rio Paraíba do Sul chegou a 9,87 metros às 14h de domingo (1). Na última atualização divulgada, às 12h15 desta segunda, a cota havia recuado para 8,98 metros, saíndo do estágio de alerta de 9m.
O cenário indica uma leve melhora, com recuo gradual da água, mas o sentimento predominante entre os moradores ainda é de apreensão.
De acordo com relatos nos locais, houve quem perdesse itens de casa, quem conseguisse retirar parte dos pertences com ajuda de vizinhos e quem optasse por permanecer em casas de familiares. Também há moradores que resistem em deixar suas casas, mesmo após o susto provocado pela força da cheia.
Uma moradora da Ilha do Cunha, que preferiu não se identificar, descreveu a dificuldade para conseguir apoio no momento crítico. “Ligamos para o Corpo de Bombeiros para pedir uma força, mas falaram que é só com a Defesa Civil. Então, ontem de manhã cedo, 7h da manhã, eu vim pra cá porque a água estava subindo, e liguei. Aí pediram fotos, vídeo, meu nome, dei endereço e eles falaram que dentro de uma hora viriam aqui. Esperei quase 5 horas, mas não vieram”, disse.
Segundo ela, a situação se agravava pela presença de crianças e pela proximidade direta da água com as casas. “Tem gente ali em baixo com criança, a água já tava entrando nos quintais e não tinham para onde ir. Ignorar o nosso contato é uma situação que acontece constante. Eles só vêm quando a água já começa a entrar nas casas das pessoas. A minha casa aqui não tem o muro no fundo. A minha porta da sala é diretamente para o campo”, afirma. O campo de futebol, que antes via bola rolando e crianças brincando, foi tomado completamente pelas água.
A moradora contou ainda que precisou sair de casa de forma preventiva. “Para me prevenir, eu tirei minhas coisas, porque o rio já estava entrando no quintal. Hoje eu resolvi voltar para cá, minhas coisas estão ali na casa de vizinhos. Não consigo subir com elas, então tenho que deixar na casa dos vizinhos ali da frente, mas lá atrás ninguém consegue”, completa.
Campo da Ilha do Cunha. — Fotos: Silvana Rust
Na Ilha do Cunha, além do alagamento, moradores relataram outro problema enfrentado desde o fim de semana: a falta de abastecimento de água. Segundo os relatos, o serviço está interrompido há dois dias.
Coroa
Na comunidade da Coroa, a situação também foi de apreensão nos últimos dias. A representante do bairro, Evana Monteiro, afirmou que os alagamentos fazem parte de uma realidade antiga. “Tem sido bem complicado e essa situação aí que vocês estão presenciando se arrasta por anos, porque só eu tenho 30 anos na comunidade, então tem sido bem intenso. O rio deu uma baixada, mas nós temos várias casas alagadas, moradores que perderam muitas coisas. A gente vive nessas condições aí e é de muitos anos”, afirma.
Ela reconheceu que houve oferta de abrigo por parte da Defesa Civil, mas destacou que a decisão de não ir foi dos próprios moradores. “A Defesa Civil veio e perguntou se algum morador queria sair para um abrigo. As pessoas, por abrigo, isso é uma coisa bem complicada, porque não é fácil. Eu já estive lá e eu sei como é que é. Então moradores optaram por colocar algumas coisas na casa de familiares e estão na casa de suas famílias. Daqui da comunidade da Coroa não foi ninguém para o abrigo, por opção própria”, disse.
Na comunidade da Coroa, moradores se deslocaram de barco. — Fotos: Silvana Rust
Sobre a falta d’água, a redação entrou em contato com a concessionária Águas do Paraíba para entender o motivo da interrupção, se há relação com a elevação do nível do Rio Paraíba do Sul, e a previsão para normalização do serviço. A redação fez um pedido de nota também à Prefeitura e solicitou esclarecimentos sobre o protocolo adotado a partir do acionamento da Defesa Civil, e se houve registro da solicitação. A reportagem aguarda retorno para atualização.
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