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Charli xcx faz da cultura pop uma religião no disco ‘Music, Fashion, Film’

Por Guilherme
Por Guilherme

Antes figura emergente do pop alternativo, a inglesa Charli xcx se tornou um fenômeno em 2024 quando lançou o disco Brat, com um som eletrônico que remetia à postura desleixada e hedonista assumida pela juventude do começo do século. De óculos escuros e cabelo indomável, a cantora de 33 anos se tornou modelo de comportamento e transformou o título do disco — antes uma expressão inglesa para repreender crianças pirracentas — na palavra do ano segundo o dicionário Collins, símbolo de liberdade para festejar entre crises de identidade e o uso de uma substância ou outra. Dois anos depois, ela fez justamente o que uma rebelde faria: renegou tudo aquilo, se entregou ao ridículo como protagonista da ótima comédia The Moment, ironizou que a pista de dança estava morta e, com uma boa dose de humor, prometeu fazer música rock. O resultado é seu sétimo álbum de estúdio, Music, Fashion, Film, recém-lançado nas plataformas de streaming.

Feito em parte como forma de alienar o público que apenas se afeiçoou a ela após a fama, o trabalho é diferente de tudo que se vê nas paradas, marcado sobretudo por guitarras insistentes e letras que trocam a poesia e a rima pela descrição factual e muitas vezes blasé. Na contramão do timbre monocórdio das faixas de Brat pensadas para as pistas, como Club Classics ou 360, o efeito agora remete muito mais ao clássico disco Songs for Drella, de Lou Reed e John Cale — este, presente na capa de Music, Fashion, Film ao lado do estilista Marc Jacobs e do cineasta Martin Scorsese —, idealizado pela dupla como forma de velar o ícone pop Andy Warhol e o imaginário sustentado por ele, que fez da cena alternativa de Nova York seu império e levou a reprodutibilidade do marketing às galerias mais conceituadas do mundo. Não por acaso, o énfant terrible virou o “Papa do Pop” — e Charli cresceu de acordo com seu sacerdócio. 

Music, Fashion, Film é música para uma geração secular que tem a cultura pop como sua verdadeira iconografia, e, mais interessante que isso, é feito por uma jovem que viu a própria transformação em símbolo cultural, para então descobrir que tamanho feito não a canonizaria, nem a isentaria da impermanência. Encerramento do disco, a mórbida No One Lasts Forever foi feita em parceria com o mestre do macabro David Cronenberg e encapsula justamente esse dilema dos artistas: suas obras podem superar intempéries e atingir a imortalidade. Eles, não.

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Pontos fracos são o conceito batido de Card Declined, apesar de ótimos riffs, ou a tocante, mas previsível I’m Afraid. Já bons destaques são Magic Metal Montana — canção de amor endereçada ao amigo e parceiro criativo A. G. Cook — e Persona, sátira honesta sobre o alpinismo social que celebridades ora sofrem e ora praticam.

O trunfo de Music, Fashion, Film, contudo, não é meramente refletir a experiência da fama, mas compreender que, na era das redes, todos podem se sujeitar às ânsias de imagem antes reservadas às estrelas. Enquanto Madonna celebra que “todos aqui são uma obra de arte” (em Danceteria, do disco Confessions II), Charli acrescenta um adendo menos otimista: todos são arte, mas todos são também seus próprios agentes de vendas. Sem saída clara, resta bater a cabeça entre a desilusão e a euforia.

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