Fotos: Assessoria PF
Campos dos Goytacazes registrou 1.125 apreensões de drogas entre janeiro e agosto de 2026, ficando atrás apenas da capital fluminense, que contabilizou 2.269 ocorrências, segundo dados do Instituto de Segurança Pública (ISP). Fecham o top-5, Rio das Ostras (836), Cabo Frio (688) e Petrópolis (654). O número coloca Campos em destaque negativo no estado e levanta questionamentos sobre as dinâmicas do tráfico e ação das forças de segurança na região. Segundo especialista, além da atuação contra a ‘criminalidade visível’, é preciso avançar para atingir outro ‘nicho’.
A reportagem procurou a Polícia Civil para obter informações sobre os tipos e as quantidades de drogas apreendidas, além de esclarecimentos sobre os fatores que explicam o número de ocorrências e uma possível função de Campos como ponto de passagem, distribuição ou armazenamento de entorpecentes. Até o fechamento desta edição, não houve retorno.
Campos como ‘rota’ para o tráfico?
Há poucos meses, a Polícia Rodoviária Federal (PRF) apreendeu mais de 20 quilos de cocaína em Campos. Segundo o órgão, a carga teria como provável destino Guarapari, no Espírito Santo. E este é apenas um dos exemplos do mesmo caso. A localização de Campos, no Norte Fluminense, e a ligação com rodovias importantes, podem ajudar a entender esse cenário.
Para a socióloga Luciane Silva, doutora pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e professora da Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf), o porte da cidade e sua posição geográfica são fatores relevantes. “Essa questão tem de fato uma relação com o tamanho e a localização da cidade. São 500 mil habitantes, numa região de passagem muito importante, considerando Sudeste, Minas e Espírito Santo”, avaliou.
Para o defensor público e doutor em sociologia política, Tiago Abud, articulista do J3News, a questão também é um fator relevante.
“É uma posição geográfica estratégica de fato, afinal a cidade está entre os estados do Rio e do Espírito Santo. Mais que isso, é o maior município do interior e um polo universitário. Então, acaba figurando como um local de interesse do tráfico. Uma amostra disso é a chegada da maior facção criminosa do Rio de Janeiro, que é o Comando Vermelho, que passou a enxergar Campos como ponto de interesse. O que muda também a dinâmica da criminalidade envolvendo o tráfico de drogas”, comenta. E acrescenta:
“Não sem razão, você vê hoje essa questão se expandindo para o interior de Campos, como Travessão, Morro do Coco, Vila Nova, Santo Eduardo e Santa Maria, bem como Goitacazes. Assim, o tráfico descentraliza e se espalha por todo o território municipal. Inclusive, está na Pelinca também. Está, em grande medida. Só que não tem apreensão lá”, completa.
Demais ‘nichos’ também precisam ser enfrentados
Para o especialista, os números de apreensão de drogas precisam ser analisados com um olhar diferente. “Campos sempre teve números expressivos nesse sentido. Porque trata-se de uma criminalidade visível. Como os órgãos de segurança pública necessitam mostrar que estão trabalhando, eles atacam muito mais essa criminalidade que é mais fácil de perseguir. Via de regra, a maioria dessa droga é encontrada em abordagens na rua. Dificilmente, decorre de investigações”, pontua. E acrescenta, chamando atenção para o direcionamento que as polícias têm nesse sentido:
“É uma polícia que investiga pouco, que se preocupa em produzir números para demonstrar que está trabalhando. Porém, atinge apenas um nicho da criminalidade. Na mesma medida, você vai ver grandes números de prisões por roubo e furto. Pela mesma razão. Agora, é preciso questionar aos delegados e promotores sobre as denúncias e investigações de lavagem de dinheiro, corrupção e sonegação fiscal, por exemplo. Porque aí é um trabalho mais difícil, que requer investigação, trabalho de inteligência, e que atinge outro público”, complementa.
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