Um artigo publicado na revista Scientific Reports relata uma década de pesquisa sobre uma misteriosa anomalia conhecida como “buraco gravitacional” sob a Antártida. O estudo mostra como essa região ajuda a revelar processos profundos que moldam o interior da Terra há milhões de anos, ampliando a compreensão sobre a dinâmica interna do planeta.
De nome científico “Depressão Geoide Antártica”, o buraco corresponde a uma ampla área onde a força da gravidade é ligeiramente mais fraca. Essa variação indica diferenças na distribuição de massa no interior da Terra. Quanto menor a massa em determinada região profunda, menor tende a ser a atração gravitacional medida na superfície.
A pesquisa foi conduzida por cientistas da Universidade da Flórida, nos EUA, que reconstruíram a evolução dessa anomalia ao longo dos últimos 70 milhões de anos. Os resultados indicam que ela não surgiu por acaso. Trata-se de uma característica persistente, ligada a movimentos lentos de rochas a milhares de quilômetros de profundidade.
Apesar do nome parecer alarmante, o fenômeno não representa risco. A diferença de gravidade é tão pequena que uma pessoa de 90kg pesaria apenas alguns gramas a menos na região. Não há buraco físico nem desaparecimento da gravidade. O que existe é uma variação sutil detectada por instrumentos científicos.
Gravidade não é igual em toda a Terra
A gravidade não é igual em todos os pontos do planeta. O interior da Terra é formado por camadas com diferentes temperaturas e densidades. Rochas mais quentes e leves tendem a subir no manto, enquanto materiais mais frios e densos afundam. Esse movimento constante altera lentamente a distribuição de massa.
Essas mudanças afetam o chamado geoide, que representa o formato que os oceanos teriam se estivessem completamente calmos, sem ventos ou correntes. O geoide é definido apenas pela gravidade. Na Antártida, ele forma um “vale” profundo, onde a superfície do mar fica mais próxima do centro da Terra.
Segundo os modelos apresentados no estudo, essa é a maior anomalia gravitacional de longo comprimento de onda associada ao manto terrestre. Isso significa que se trata de uma variação ampla e profunda, que se estende por grandes distâncias. Não é um detalhe local, mas uma estrutura em escala continental.
Para reconstruir essa história, os pesquisadores usaram dados sísmicos. Ondas geradas por terremotos atravessam o planeta e revelam diferenças na composição e na temperatura do interior. Com essas informações, os cientistas criaram simulações em computadores de alto desempenho, voltando no tempo para entender como o manto evoluiu.
Evolução da Baixa Geoide Antártica. Crédito da imagem: P. Glišović & AM Forte
Como não é possível observar diretamente o passado da Terra profunda, os modelos testam diferentes hipóteses sobre viscosidade e resistência das rochas. Ao comparar simulações com dados atuais de gravidade, os pesquisadores identificaram cenários mais compatíveis com a realidade. Assim, puderam traçar uma linha do tempo da anomalia.
Os resultados mostram que a baixa gravidade na Antártida persiste há grande parte dos últimos 70 milhões de anos. No entanto, sua intensidade e formato mudaram ao longo do tempo. Essas alterações coincidem com reorganizações significativas no fluxo de rochas do manto sob o continente.
Um dado curioso é que a intensificação da anomalia ocorreu por volta de 34 milhões de anos atrás. Foi nessa época que a Antártida passou a ser permanentemente coberta por gelo. A coincidência temporal levanta a hipótese de que mudanças profundas no interior da Terra possam ter influenciado, de forma indireta, o ambiente da superfície.
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Variações na “paisagem gravitacional” influenciam no nível do mar
Atualmente, na região da anomalia, o nível do mar definido pela gravidade está cerca de 120 metros abaixo da média global. Em termos geofísicos, essa é uma diferença expressiva. Ao longo de milhões de anos, variações graduais nessa “paisagem gravitacional” podem alterar a referência regional do nível do mar.
Os pesquisadores ressaltam, porém, que a glaciação da Antártida teve múltiplas causas. Fatores como a queda nos níveis de dióxido de carbono, mudanças na circulação oceânica e transformações tectônicas também desempenharam papéis importantes. O estudo não afirma que a gravidade foi a causa do gelo, mas aponta uma possível contribuição.
Representação artística do buraco gravitacional da Antártida. Crédito: Imagem gerada por IA/Gemini
Além de ajudar a entender o passado da Antártida, a descoberta amplia o conhecimento sobre a dinâmica interna da Terra. O planeta possui outras anomalias gravitacionais, mas poucas são tão amplas e duradouras. Isso torna o caso antártico particularmente relevante para a geofísica.
O trabalho também tem implicações para a ciência planetária. Em planetas como Marte e Vênus, variações gravitacionais detectadas por espaçonaves indicam estruturas internas e antigas atividades geológicas. Essas anomalias funcionam como impressões digitais da dinâmica interna.
A diferença é que, na Terra, os dados de gravidade podem ser combinados com informações sísmicas e registros geológicos. Isso permite reconstruir não apenas o estado atual do planeta, mas sua evolução ao longo do tempo. Segundo os autores, essa perspectiva histórica é o aspecto mais fascinante da descoberta.
Ao revelar como correntes lentas de rochas profundas moldaram o campo gravitacional ao longo de dezenas de milhões de anos, o estudo mostra que o interior da Terra está longe de ser estático. Mesmo processos invisíveis e extremamente lentos deixam marcas mensuráveis. O “buraco gravitacional” da Antártida, portanto, é menos um vazio e mais uma janela para o coração dinâmico do planeta.
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