“A gente só não pode dizer que Campos foi fundada em 28 de março de 1835. Porque se a gente fizer isso, perde toda a nossa história anterior. É como se Campos fosse novinha. E não é. É muito mais antiga e tem muito mais história”. A declaração da historiadora Sylvia Paes é uma das amostras do tema que pauta a reportagem especial do J3News desta semana. Campos comemorou no último sábado (28) 191 anos de elevação à categoria de cidade. Mas, as polêmicas sobre a data de comemoração de aniversário e sobre a idade do município sempre vêm à tona nesta época.
Século XVII|Igreja de São Francisco marca local de fundação da vila (Foto: Silvana Rust)
“Eu apoio a celebração no dia 28 de março. É uma data que a população já absorveu e é um momento bem simbólico na nossa história. A única coisa que não gosto, que acontece neste período, é de falar, por exemplo, que em 2026 Campos completa 191 anos. É como se esquecesse que a gente tem mais de 360 anos para trás”, destaca a historiadora Graziela Escocard, diretora do Museu Histórico de Campos e recém-eleita presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Campos.
Mas, afinal, por que 28 de março? E que outras datas simbólicas a cidade poderia comemorar? Qual idade o maior município do Norte Fluminense e maior de todo o Estado do Rio em extensão territorial pode ter? É o que propõe abordar a reportagem do J3, contando com a colaboração de quatro historiadores: Genilson Soares, Graziela Escocard, Rafaela Machado e Sylvia Paes.
Primeiro, é importante pontuar que o 28 de março é celebrado pelo seguinte motivo: em 28 de março de 1835 a então Vila de São Salvador foi elevada à categoria de cidade, passando a se chamar Campos dos Goitacazes. Sim, à época, com a letra i mesmo, como mostram registros históricos cedidos pelo Arquivo Público Municipal. Acontece que outras datas são destacadas como relevantes para a história campista. Em especial o 1° de janeiro de 1653 e o 29 de maio de 1677. A primeira data simboliza a criação da Câmara de Vereadores. Já a segunda, a fundação da Vila de São Salvador.
“Como membro do Instituto Histórico e Geográfico, defendo que a data mais significativa e que possui o documento do fato, é 1º de janeiro de 1653, quando ocorreu a primeira reunião da Câmara em nosso território. Entendo que desmistificar essas datas não significa negar nosso patriotismo. Pelo contrário, trata-se de uma maneira didática de esclarecer como ocorreu o processo de ocupação do atual município de Campos dos Goytacazes”, pontua Genilson Soares.
A história de Campos por historiadores campistas
A história começa de fato em meados do século XVI, com destaque para a resistência dos índios Goitacá, que muitos anos depois viriam a ser lembrados no nome da cidade. “O que hoje chamamos de Campos dos Goytacazes fazia parte, inicialmente, da então capitania de São Tomé, logo rebatizada de Paraíba do Sul, e doada pelo rei de Portugal, Dom João III, ao fidalgo Pero de Góis no ano de 1534, obviamente, à revelia dos legítimos donos dessas terras, os indígenas Goitacá”, diz Rafaela Machado.
“Pero de Góis iniciou a primeira tentativa de colonização. Habitantes locais à época, os índios Goitacá opuseram feroz resistência à ocupação e implantação do cultivo de cana-de-açúcar pelos portugueses, inviabilizando o projeto. A partir de 1627, com a doação do território aos chamados ‘Sete Capitães’, a colonização baseada na pecuária, começou a se processar de modo efetivo”, complementa Genilson Soares.
Rafaela Machado acrescenta, resgatando a primeira data histórica da trajetória de Campos: o primeiro curral: “Com o domínio formal da região, os Sete Capitães aqui fundaram alguns currais para a criação de gado. A fundação do primeiro curral em Campo Limpo, em 8 de dezembro de 1633, é também um importante marco histórico para a cidade.”
Mas, anos depois, surge um personagem importante e mais passagens históricas. “Apesar de não efetivamente colonizadas, aquelas terras despertaram o interesse do então governador do Rio de Janeiro, general Salvador Correia de Sá e Benevides, que tendo requerido tomar parte daqueles domínios, firmou com dois remanescentes dos Sete Capitães, além de jesuítas e beneditinos, discutida escritura de composição assinada em 1648. Interessado nas riquezas naturais da região, fundou aqui em 1650 o Engenho São Salvador, mandando trazer de suas propriedades no Rio de Janeiro muito gado, cana e mão de obra escravizada”, resgata Rafaela.
Salvador Correia tem participação importante em outros marcos históricos do município. Como conta Genilson Soares, relembrando outra data importante. “Em 6 de agosto de 1652, realizou-se a primeira missa na capela erigida por Salvador Correia.”
Poucos meses depois, mais uma data histórica: 1° de janeiro de 1653. “No ano de 1652, de acordo com Alberto Lamego, as terras da antiga capitania de São Tomé contavam já com um número de 70 moradores, que reunidos entre si resolveram fundar eles próprios uma vila – a Vila de São Salvador. Para tal, realizaram ao final daquele ano a eleição dos oficiais para composição da Câmara – ato formal de criação de vilas na América Portuguesa, que vinha acompanhado ainda da criação de igreja e pelourinho”, explica Rafaela.
“É Salvador Correia quem faz a fundação, em nome da Coroa Portuguesa. Ergue o pelourinho, que era uma representação do poder judiciário, elege a Câmara de Vereadores e ergue a igreja. Já existia a Igreja São Francisco, mas ele muda o sacrário para onde hoje está a Catedral, porque era um ponto mais alto, que não inundava. A partir daí, começa de fato a ocupação e a Vila de São Salvador”, detalha Sylvia Paes.
Porém, já naquela época as brigas políticas se faziam presentes.”Questões políticas e interesses econômicos acabaram extinguindo esta Câmara no ano de 1657. Até que, em 29 de maio de 1677 ocorreu o ato da posse definitiva da Vila de São Salvador dos Campos dos Goitacazes pelo Visconde D’Asseca, cuja família dominou a região por quase um século”, revela Genilson.
O levante de Benta Pereira
O historiador Genilson Soares destaca ainda outra passagem importante na história de Campos. A atuação engajada de Benta Pereira pelo avanço local. “Após anos de resistência dos moradores da Vila, que culminou com o levante promovido por Benta Pereira em 1748, finalmente em 1750 ocorreu a queda do poderio dos Assecas, devolvendo a Capitania à Coroa. A partir daí, a expansão do cultivo da cana-de-açúcar se tornou possível pela divisão dos grandes latifúndios. A introdução do primeiro engenho a vapor na região, em 1830, trouxe grande transformação no processo da produção açucareira”, conta.
A influência e os interesses políticos foram protagonistas também para a elevação à categoria de cidade. A historiadora Rafaela Machado conta que, com a transferência da Corte Portuguesa para o Brasil em 1808, e a independência em 1822, Campos passou a figurar como centro político e econômico da região. “A construção de uma cidade com ares de modernidade era condição para uma participação ativa nas decisões políticas e econômicas do Estado”, comenta Genilson. A elevação da Vila à categoria da cidade figura então na Lei Provincial de 28 de março de 1835.
Três datas em destaque
As historiadoras Rafaela Machado e Sylvia Paes defendem como principal data a ser celebrada o dia 29 de maio de 1677. “É quando o governo português indica para que aquela capitania fosse efetivamente fundada, tornando-se Vila”, enfatiza Sylvia. “Se levarmos em consideração a permanência e constância da empresa colonial, deveríamos celebrar a data de 29 de maio de 1677, data na qual foi oficialmente fundada a Vila de São Salvador da Paraíba do Sul”, diz Rafaela.
Já Graziela Escocard, reconhece a importância histórica do 1° de janeiro de 1653 e a relevância do 28 de março de 1835, defendendo um olhar mais amplo para o cenário. “A ideia de um ‘aniversário’ para o município é uma construção simbólica. O que a história nos oferece não é uma data isolada, mas um conjunto de marcos que revelam diferentes dimensões da formação da cidade. Se me cabe uma posição enquanto historiadora, apresento-a de forma clara: 1º de janeiro de 1653 deve ser compreendido como o marco de fundação institucional; 28 de março de 1835 como marco de consolidação urbana e identidade municipal. Mais do que escolher entre datas, é preciso compreender o processo”, conclui.
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