“É um longo caminho para o topo se você quiser fazer parte do rock’n’roll”, diz uma velha canção do AC/DC. Na estrada desde 1973, o grupo de rock pesado alcançou o estrelado no final da mesma década e sobreviveu à perda do seu vocalista carismático por intoxicação alcoólica aguda, à aposentadoria forçada de seu líder e principal compositor (diagnosticado com demência, Malcolm Young deixou o grupo em 2014 e morreu três anos depois) e a um problema sério que quase deixou surdo seu atual cantor, Brian Johnson. Ocorreram ainda diversas trocas de baixistas e de bateristas ao longo dos anos. Da formação original, resta hoje apenas o guitarrista Angus Young, que formou a banda na Austrália com seu irmão Malcolm.
O AC/DC segue em frente fazendo shows (a perna brasileira da turnê, com três apresentações, começa amanhã, terça, 4, em São Paulo), mas a qualidade da performance no palco da turma vem provocando polêmica. Para alguns fãs, eles simplesmente não têm mais condições de segurar a onda do rock pesado. Os mais críticos se decepcionam com o estado atual dos vocais de Brian Johnson (78 anos) e dizem que Angus Young (70) entrega hoje uma sombra das elétricas e ensandecidas performances que fizeram sua fama. Estariam eles hoje encenando um espetáculo deprimente, em troca de mais dinheiro para a aposentadoria?
Esse tipo de crítica tem se tornado frequente para as bandas clássicas de rock que seguem na estrada, com integrantes ultrapassando a casa dos 70 anos de idade. Outro alvo óbvio para esse tipo de ataque são os Rolling Stones. Segundo o jornalista David Remnick, editor-chefe da revista New Yorker e autor do livro Sustenta a Nota, recém-lançado no Brasil, que traz uma coletânea de perfis de músicos escritos por ele ao longo da carreira, “poucos espetáculos na vida moderna são mais sublimemente ridículos do que os geriátricos Stones tocando os acordes iniciais de Street Fighting Man“. A referência é sobre o sucesso lançado há quase seis décadas, com versos como “o que um garoto pobre pode fazer, a não se cantar uma banda de rock’n’roll?”. Mick Jagger e Keith Richards, autores da canção, como se sabe, já passaram dos 80 anos — e já fizeram um bom pé-de-meia.
A exemplo dos Stones, a idade avançada dos músicos do AC/DC no palco também contrasta com o tom juvenil das letras. O que dizer de um vocalista septuagenário cantando “você me sacudiu a noite inteira” ou sobre uma noitada com uma namorada peso-pesado “que se entrega de corpo e alma, mesmo pesando seus 120 quilos”, só para ficar em dois exemplos extraídos dos grandes sucessos da banda — respectivamente, You Shook Me All Night Long e Whole Lotta Rosie.
Esse tipo de coisa é um prato cheio para alguns críticos, mas o público dá de ombros para eles — os estádios seguem cheios, não apenas com senhores de meia-idade em meio à multidão. O AC/DC está aí para comprovar o fenômeno, com os três shows do Brasil esgotados em pouco tempo. Estariam todos os fãs sendo enganados pelos velhinhos, seduzidos pelo feitiço da nostalgia? Para encontrar a melhor resposta, talvez seja melhor deixar de lado um pouco o cinismo e simplesmente aceitar que boa parte está ali para homenagear e testemunhar os últimos suspiros de lendas que marcaram época. São autênticos sobreviventes aos percalços e dramas de um longo caminho para chegar ao topo.
Merecem aplausos. Afinal, parafraseando o que Jagger e Richards diziam nos anos 70, isto é apenas rock’n’roll — e nós gostamos.




