Nos anos 1970, o músico britânico Rick Wakeman fez história como um dos tecladistas mais virtuosos — e megalomaníacos — do rock progressivo. Após brilhar ao lado do grupo Yes, ele embarcou em uma lendária carreira solo na qual combinava seu cabelão loiro com roupas medievais extravagantes — e, sobretudo, longas composições tocadas ao teclado com sofreguidão. O auge disso foi o disco Journey to the Centre of the Earth (1974), um clássico do chamado “rock sinfônico”: baseado no romance de Júlio Verne, o álbum foi gravado com banda, orquestra e coro. Mas só quem se destacava mesmo nos shows e gravações era o próprio Wakeman, com seus solos complexos sem fim.
Os anos passaram e o virtuose, hoje aos 77 anos e com a estampa de um simpático vovô de óculos e cabelos curtos, trocou as célebres empreitadas progressivas por uma causa animal: a luta pela proteção dos ursos pretos asiáticos, espécie altamente ameaçada pela prática cruel da extração de bile dos bichos para uso na medicina oriental.
Recentemente, Wakeman brindou os ursos indefesos sob risco de extinção com um, digamos, presentão: fez um concerto para 150 animais desse tipo, que habitam um santuário da organização Animals Asia, no Parque Nacional de Tam Dao, no Vietnã. O tecladista compôs novas peças especialmente pensando nos ursos e as executou diante deles, ao ar livre, munido de um piano de cauda Yamaha.
Em meio à onda de calorão infernal que atinge o Sudeste asiático na temporada do Super El Niño, um bem-humorado Wakeman dispensou o ventilador que lhe ofereceram para amenizar o suor — e concentrou-se em tocar para a plateia de ursos postada diante do rei dos teclados. “Antes que vocês perguntem, não vou tocar Teddy Bear’s Picnic”, brincou Wakeman antes da apresentação, referindo-se a uma conhecida canção infantil.
Ao ser questionado pelo jornal inglês The Guardian sobre o que os ursos poderiam achar da performance, ele teve um rasgo de bom humor: “Eles não têm muita escolha”. Wakeman disse que é sabido que os animais reagem à música, sobretudo a melodias suaves. Assim, ele investiu em composições de piano mais melódicas, imaginando que os ursos se aproximariam para ouvi-las. Parte deles realmente se mostrou curiosa e foi até o gargarejo do palco, enquanto outros permaneceram na sua calma impassível, tomando banho de sol.
A dedicação do ex-ídolo do rock sinfônico aos animais não é de hoje. Wakeman vem atuando nos últimos anos em prol de cães e gatos abandonados — ele próprio dá abrigo a vários deles em sua residência. Sua adesão à causa dos ursos pretos asiáticos vem desde 2016 — e é muito bem-vinda.
A extração da bile desses animais passa por intervenções invasivas cruéis, que causam sofrimento e levam muitas vezes à morte deles. Embora a prática seja proibida no Vietnã, sua exploração ainda persiste em fazendas clandestinas. Estima-se que um terço da população dos ursos pretos tenha sido vitimada por isso em três décadas no país. Que os intermináveis solos do astro tragam vida longa aos ursos asiáticos.




