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Garoto japonês prova que borboletas têm memória de quando eram lagartas e passam adiante

Por Guilherme
Por Guilherme

Um menino de 11 anos, de Kobe, no Japão, apresentou uma descoberta surpreendente mostrando que borboletas têm memória. Jo Nagai mostrou que exemplares da espécie Papilio xuthus conseguiram manter, depois da metamorfose, uma associação que aprenderam quando ainda eram lagartas. E o efeito apareceu também nos filhos e netos dos insetos.

A atualização do trabalho dele foi apresentada este ano durante o 73º Congresso Anual da Sociedade Ecológica do Japão, em Kyoto. Nos testes de Jo, 70,9% das borboletas treinadas evitaram o cheiro de lavanda. Entre os filhos delas, que nunca passaram pelo treinamento, o índice foi de 64,8%. Nos netos, 60%. No grupo de controle, a taxa ficou em 51%, sem indicação de preferência pelo cheiro.

O projeto nasceu de uma pergunta bem mais simples. Quando ainda estava no segundo ano do ensino fundamental, Jo criava borboletas-cauda-de-andorinha em casa e percebeu que algumas delas permaneciam voando perto dele quando eram soltas. “Sempre achei que minhas borboletas poderiam se lembrar de mim mesmo depois da metamorfose”, escreveu o garoto à entomologista Martha Weiss, da Universidade Georgetown, nos Estados Unidos.

Uma carta para uma cientista

Jo tinha 8 anos quando, em 2022, enviou uma carta de quatro páginas para Martha. Ele havia encontrado na internet uma pesquisa da cientista que mostrava que mariposas adultas conseguiam manter uma memória formada ainda na fase de lagarta. O menino queria saber se o mesmo poderia acontecer com as borboletas que criava. Martha inicialmente sugeriu uma experiência mais simples, mas Jo insistiu.

“Eu realmente quero provar que é possível que minhas borboletas se lembrem do que aprenderam quando eram lagartas. Não quero desistir agora. Preciso muito da sua ajuda”, escreveu.

A troca de cartas se transformou em uma colaboração que já dura anos. A própria Universidade Georgetown registra que os dois planejaram, executaram e analisaram experimentos sobre memória em borboletas e a possível transmissão do efeito entre diferentes gerações.

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O experimento com lavanda

Para testar a hipótese, Jo treinou lagartas de Papilio xuthus associando o cheiro de lavanda a um estímulo desagradável. Depois que passaram pela metamorfose, ele colocou as borboletas em um equipamento em formato de Y.

De um lado havia água com açúcar. Do outro, água com açúcar e cheiro de lavanda. A maior parte das borboletas que havia recebido o treinamento ainda na fase de lagarta evitou o caminho com o aroma.

O resultado já chamava atenção porque, durante a metamorfose, o corpo e o sistema nervoso do inseto passam por uma profunda reorganização. Mas Jo decidiu fazer outra pergunta: o efeito poderia aparecer também nas gerações seguintes?

Filhos e netos

Nos experimentos apresentados em 2026, os descendentes não passaram pelo treinamento com lavanda durante a fase de lagarta. Mesmo assim, 64,8% dos filhos e 60% dos netos das borboletas treinadas evitaram o cheiro quando adultos.

A tendência ficou mais fraca a cada geração. O resumo apresentado à Sociedade Ecológica do Japão aponta a epigenética como uma das possíveis explicações. Nesse processo, fatores externos podem alterar a maneira como determinados genes funcionam sem modificar a sequência do DNA.

Isso não significa que os netos das borboletas tenham uma “lembrança” consciente da experiência vivida pelos avós. Os resultados indicam que uma resposta aprendida pode ter deixado efeitos biológicos capazes de influenciar o comportamento das gerações seguintes.

O mecanismo ainda precisa ser investigado e os resultados necessitam de estudos independentes e publicação científica revisada por outros pesquisadores antes de conclusões mais amplas.

Pesquisa começou dentro de casa

Muito antes de apresentar trabalhos em congressos científicos, Jo fazia os experimentos em casa. No primeiro estudo, ele adaptou materiais que tinha disponíveis, usando óleo de lavanda e um pequeno aparelho de terapia muscular.

Segundo o relato do Radiolab, aproximadamente 80% das borboletas naquele primeiro experimento continuaram evitando o cheiro depois da metamorfose. Martha Weiss contou que ficou surpresa quando recebeu os resultados do garoto.

Jo continuou a pesquisa e, em 2024, apresentou seu trabalho no Congresso Internacional de Entomologia, onde finalmente conheceu Martha pessoalmente. Em março deste ano, já aluno da Escola Primária Ibuki Higashi, voltou a apresentar os novos dados sobre as três gerações de borboletas no congresso da Sociedade Ecológica do Japão.

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