A viagem mais louca da história dos Estados Unidos ocorreu no início dos anos 60 a bordo de um ônibus pintado com cores psicodélicas e equipado com um potente sistema de alto-falantes com efeitos de eco para multiplicar músicas e mensagens dos tripulantes para o lado de fora. O idealizador da trip era um escritor prestigiado, com um best-seller no currículo e um histórico de perseguições da justiça por porte de maconha. Na direção estava um herói da geração beat, que acelerava o veículo nas estradas com a mente irrigada por anfetaminas. O combustível dos passageiros, que se tratavam por apelidos como Garota da Montanha, Contestador e Eremita, consistia em refrescos de laranja batizados com ácido lisérgico, o LSD. Um dos objetivos da turma era abrir as mentes da América, popularizando o barato dessa droga, que era na época permitida.
Iniciada em 1964, essa jornada hippie cruzou o território americano e se tornou um dos grandes símbolos da contracultura. O ônibus original, um International Harvester ano 1939, que virou objeto de culto, deixou recentemente a fazenda em que estava guardado, no Oregon, rumo a San Francisco. Ele será exibido ao público no próximo dia 5, no Golden Gate Park, no centro cultural Haight Street. Depois disso, o veículo será completamente restaurado. A história da trupe autodenominada The Merry Pranksters (Os Festivos Gozadores, em uma tradução livre) foi retratada em um dos clássicos do escritor Tom Wolfe, o livro O Teste do Ácido do Refresco Elétrico.
O ônibus original de Ken KeseyReprodução/VEJA
Ken Kesey (1935-2001), o responsável pela viagem, tinha se tornado uma sensação literária com o romance Um Estranho no Ninho, de 1962, depois transformado em filme de Hollywood estrelado por Jack Nicholson. O motorista do ônibus era outra figura lendária, Neil Cassady (1926-1968), que falava compulsivamente, de forma rimada, e inspirou o personagem Dean Moriarty no livro On the Road, um dos maiores clássicos da geração beat. A ideia original era usar a viagem para chamar atenção para o segundo livro de Kesey, Às vezes uma grande ideia, e, de quebra, difundir o uso do LSD.
Não havia como a trupe não chamar atenção por onde passava, a começar pelo veículo, com suas cores berrantes e equipamentos fora do comum. “O ônibus tinha um sistema mediante o qual podiam transmitir de dentro, com fitas e com microfones, e o som vinha estourar do lado de fora em poderosos alto-falantes instalados no teto. Havia também microfones do lado de fora, que iam captar os ruídos ao longo da estrada e transmiti-los para dentro do ônibus”, descreve Tom Wolfe.
Em um dos primeiros passeios, a trupe acabou sendo parada por um atônito guarda. Enquanto ele chamava atenção para os problemas do ônibus (placa irregular, luz do pisca-pisca quebrada etc), os passageiros, vestidos com roupas laranja e verdes, além de máscaras luminescentes, rolavam pelo gramado, sob efeito do ácido. Diante daquela cena, o patrulheiro acabou desistindo de aplicar qualquer multa.
Os Festivos Gozadores ficaram na estrada durante um mês. O destino final foi a Feira Mundial de Nova York. Uma das ideias da turma era produzir um filme sobre a viagem, projeto nunca concretizado. Mais de 100 horas das gravações foram recuperadas e usadas posteriormente em um documentário sobre a jornada, o Magic Trip, de 2011, por Alison Ellwood e Alex Gibney. Confira aqui o trailer do filme:
https://www.youtube.com/watch?v=57OaoZZ61oM
Uma das passageiras do ônibus, a Garota da Montanha, apelido de Carolyn Adams, casou-se depois com o guitarrista Jerry Garcia, líder do Grateful Dead, banda que passou a animar as festas de ácido organizadas pelos Festivos Gozadores. Em encontros realizados dentro de locais como armazéns, as pessoas recebiam na entrada um copo de laranjada batizado com ácido. A balada contava com o som do Grateful Dead e luzes estroboscópicas. Algumas pessoas dançavam de forma esquisita, alguns rastejavam no chão imitando guinchos de animais, casais transavam e os músicos, também sob o efeito do LSD, tentavam se concentrar na execução enquanto os braços das guitarras se transformavam em serpentes.
A farra do ácido terminou em 1967, quando o LSD foi proibido nos Estados Unidos. Assim, nunca mais foi possível fazer outra viagem tão louca quanto a dos Festivos Gozadores.




