Um dos maiores guitarristas da história do jazz teve que inventar uma técnica nova depois de perder os movimentos de dois dedos de sua mão esquerda, a mesma que os destros como ele usam para percorrer os trastes do instrumento. O artista em questão, o belga Django Reinhardt (1910-1953), sobreviveu a um incêndio que queimou gravemente seu corpo e paralisou o dedo mínimo e o anelar. Mesmo com essa grande limitação, seguiu tocando e fazendo solos prodigiosos.
Essa história encontra um grande paralelo no rock. Tony Iommi foi um dos fundadores do Black Sabbath e, enquanto compositor da banda, praticamente inventou o heavy metal com seus riffs pesados e distorcidos. Para chegar ao estrelato, precisou superar um grave acidente que poderia ter ceifado prematuramente a carreira do guitarrista. A exemplo de Ozzy Osbourne e de outros colegas do Sabbath, Tony era integrante da classe operária da cidade inglesa de Birmingham. Aos 18, trabalhava como soldador em uma fábrica quando sofreu o desastre.
Na ocasião, a prensa prendeu os dedos de sua mão direita. Em um gesto de reflexo, puxou o braço, o que só piorou o quadro: as pontas dos dedos médio e anelar acabaram sendo decepadas. Na emergência do hospital, disseram que nunca mais poderia tocar. Ele entrou em depressão até que alguém lhe contou o que havia acontecido a Django Reinhardt e mostrou uma gravação do belga. Impressionado com a história, Tony decidiu tentar voltar à música.
A partir de uma garrafa velha, construiu capas de plástico que, encaixadas nos seus dedos, poderiam substituir as pontas decepadas, como se fossem próteses. Na sequência, colocou cordas mais leves no instrumento para facilitar o trabalho. Fora o alcance de alguns acordes, a execução se tornou possível e, assim, o guitarrista conseguiu seguir em frente.
O Black Sabbath encerrou oficialmente as atividades em 2017 e a formação original do grupo fez no ano passado uma última apresentação em homenagem a Ozzy Osbourne em Birmingham. Com sérios problemas de saúde, o vocalista se apresentou numa cadeira de rodas e, dias depois, faleceu, aos 76 anos.
Iommi, que completou 78 em fevereiro deste ano, segue em atividade. No próximo mês irá lançar o álbum solo From the Dark, o primeiro trabalho original dele em mais de duas décadas. Tony virou uma lenda do heavy metal pelo talento e a capacidade de superação.




