Há 44 anos, em um dia seis de agosto, o imigrante libanês Raymond Antoun Khayat abria as portas do restaurante Kantão do Líbano, no coração da Avenida Pelinca, então não apontada como a área mais nobre e centro de gastronomia de Campos.
Chegou com poucos pertences e com muita vontade de vencer. Procurava um cantinho para montar um negócio que se transformou em Kantão. Católico, ele escolheu o dia de São Salvador para inaugurar o restaurante, especializado em culinária libanesa, que passou a ser referência na cidade.
Há duas semanas ele recebeu o prêmio de Mérito Lojista da CDL de Campos. Nesta entrevista ele fala desta história de mais de quatro décadas e de uma clientela seleta, formada por médicos, advogados, políticos e empresários.
Talvez por ter tantos clientes médicos, ele tenha formado um filho e uma filha em Medicina, e ainda este ano ele vai assistir à formatura da neta, também em Medicina. Por tudo isso, pela história de vida, seria melhor chamá-lo de Doutor Raymond.
Como nasceu o Kantão do Líbano há 44 anos?
Eu abri o restaurante, aqui mesmo na Pelinca, mas do lado direito, quase em frente ao atual e a Pelinca nem sonhava em ser um dia uma referência em gastronomia. O restaurante abriu no dia 6 de agosto de 1982, dia do padroeiro de Campos. Para minha surpresa, o restaurante naquela noite lotou. São Salvador, o Santíssimo, estava do meu lado e me ajudou e vem me ajudando até hoje, todos os dias, todas as noites, há 44 anos. Sempre me lembro desse dia, e assim trabalho com fé e muita gratidão.
Na única mudança em 44 anos, você só teve o cuidado de atravessar a avenida. Conta como foi isso?
Eu mudei porque lá, do outro lado, ficou pequeno. Foi uma mudança planejada porque realmente havia necessidade de mais espaço. No outro restaurante, em determinados dias, seja para almoço ou jantar, as pessoas chegavam a fazer filas, esperando uma mesa vagar. Era então uma necessidade. O atual restaurante era uma residência e atendia minhas necessidades. Então ele recebeu uma decoração tipicamente libanesa, bem atual. O outro também tinha, mas não com este espaço e detalhes. Esse também permitiu uma área aberta que virou um centro de convivência dos clientes. O objetivo era exatamente esse e tudo foi feito assim, com muito trabalho e fé, sempre lembrando daquela noite de São Salvador, há 44 anos. Lembro-me que tive um grande incentivador nesta mudança, Leomar Passos, que desenrolou toda a parte imobiliária e ajudou nas obras deste restaurante. Eu só tirei minha cozinha e mercadorias e atravessei a rua para onde estamos. Saudoso Leomar, por quem tenho uma infinita gratidão.
Seu restaurante era sempre conhecido por ser frequentado por políticos. Quantos políticos você lembra?
Todos eles, todos os políticos. Todos os médicos, advogados. Eles gostaram da comida que como não poderia deixar de ser, era o carro-chefe do restaurante, com culinária típica mesmo, em cada detalhe. No começo, eu acordava cedo para adiantar a comida para almoço e jantar. Eu ensinei a arte da cozinha libanesa às minhas filhas. Eu levantava às 4 horas da manhã e chegava sozinho no Kantão. Eu descia do carro, abria o restaurante, trancava a porta e ia para a cozinha preparar as carnes, tudo como tinha que ser feito. Quando chegava às 8h, quase tudo já estava pronto e então eu abria o restaurante e atendia o primeiro freguês. Fregueses já chegavam no primeiro horário consumindo as esfirras assim que eu abria o restaurante.
Já às 8 horas?
Sim. Um freguês de primeiro momento, desde o primeiro dia, era e continua sendo o nosso médico, o Dr. Maron El Kik. Ele era nosso vizinho nesta época. Um freguês que continua sendo muito especial e que faz indiscutivelmente parte da história do restaurante. Com ele vieram os médicos mais importantes da cidade e assim minha clientela foi aumentando.
A colônia de libanesa em Campos é muito grande, mas você tem entre muitos o Adel Abourejeli. Uma amizade de patrícios?
Uma irmandade seria melhor para definir. Adel é um irmão, ele e o Jorge. Aquele patrício que literalmente fala a minha língua. Um grande empresário e incentivador. Faz parte da nossa família. Faz e sempre fará.
A colônia está indo bem?
Vai bem com seus descendentes. O original mesmo não tem ninguém. Só ficaram uns três ou quatro. Adel e Jorge são originais, mas a colônia com seus descendentes continua viva e isso é importante. Os descendentes fazem parte da Casa, são frequentadores do restaurante. A culinária é parte da nossa cultura, e estamos mantendo isso tudo vivo, mantendo a memória. Passados esses 44 anos, percebo a importância disso tudo. Estamos servindo nossa cultura, de forma autêntica. Passei a tratar isso como uma missão, principalmente depois dos meus filhos aqui nascidos e dos meus netos.
Além da esfirra, do quibe, dos charutinhos e também do grão-de-bico, carnes… você trouxe os doces do Líbano. Vamos falar sobre os doces?
Assim que cheguei, eu conheci uma firma lá em São Paulo especializada na arte dos doces libaneses. São patrícios que têm uma indústria que trabalha com o que existe de melhor. Fazem bem o doce. Aí fiz acordo com eles, uma coisa exclusiva, uma fidelização e esse é o segredo dos nossos doces. Nunca mudamos de fornecedor nestes 44 anos. Ele manda a matéria-prima, eu pago o boleto e é tudo assim. Assim como a comida, os doces do Kantão são típicos, os mesmos que se comem no Líbano, posso garantir para você. Essa firma de São Paulo tem o DNA de Istambul. Nosso tahine, para fazer o grão-de-bico , também vem desse fornecedor que sempre nos atendeu.
Qual o prato típico que mais sai aqui no Kantão?
Grão-de-bico típico. Depois vem carneiro à moda da casa. O pessoal adora churrasquinho de carneiro acompanhado de arroz com lentilha e charutos de repolho. Graças a São Salvador, a nossa cozinha é uma linha de montagem e temos que manter a tradição da boa mesa. Também saem muitos churrasquinhos de todo tipo de carne.
Você passou por uma pandemia? Na pandemia você implantou o delivery?
Sim. Eu vendi muita coisa no formato de delivery e o Kantão se adaptou bem a essa situação que era nova. O pessoal sabia que o restaurante não estava funcionando, mas a cozinha não podia parar. Foi um período de muito, muito trabalho.
E a cozinha rodava?
A cozinha rodava. Eu não demiti nenhum funcionário e nem pude dar férias. Todos trabalhavam com equipamentos de segurança, afinal, como já disse, parte da nossa clientela é formada por médicos. O controle de qualidade e segurança na nossa cozinha triplicou no curso da pandemia e continua sendo um dos nossos diferenciais até hoje e digo que sempre foi.
Além dos políticos, dos médicos, os empresários também. Como era receber esses grandes empresários?
Sim. Todos os grandes empresários, os de Campos e os que vinham a Campos. No domingo, para o almoço continuam vindo muitos. Muitos almoços e jantares de negócios. Até hoje é assim. Existe um grupo, do qual faz parte o nosso Tito Inojosa, que está aqui todos os domingos. E eu tive a honra de ter como cliente o pai dele, o empresário Evaldo Inojosa de Andrade. Isso tudo passa de pai para filhos.
Você está na Pelinca, que há 44 anos não era isso tudo. Você foi pioneiro. Como foi isso?
Sim. A Pelinca comparando com hoje não era esse endereço todo. Hoje, para mim, a Pelinca virou tipo Avenida Paulista, algo como a Oscar Freire, em São Paulo, cheia de restaurantes. O meu foi o primeiro restaurante aqui. No começo eu tinha um sapateiro como vizinho. Muita gente achou que não iria dar certo porque estava longe do centro da cidade.
Mas depois vieram vizinhos ilustres, como Cabernet, La Coruña e outros. Deu para conviver bem?
Claro que sim. Dei as boas vindas a todos. Tem muita gente que gosta de comida japonesa, peixe, e a Pelinca tem um pouco de tudo. Isso é bacana. Eu apenas mantive meu negócio funcionando como naquela noite de São Salvador, há 44 anos. Os fregueses aqui não são fregueses, são amigos agora, recebo todos eles bem. Conheço todos.
Quantas vezes você já voltou ao Líbano depois que veio?
Acho que 27 vezes. Faço até hoje essas aventuras. Digo que é uma necessidade. Eu largava aqui, na mão da minha filha. É importante a gente saber sempre de onde veio. E fiz muitas dessas viagens em família. Todas bem planejadas. Roma, e de lá para Beirute. Faz bem para nossa fé e sou católico. Gosto de Dubai, onde já estive duas vezes.
Vendo o mundo hoje, a questão do Oriente Médio, essa briga toda. Como é que você observa isso?
Tenho sobrinhos no Líbano. Rezo sempre para todos.
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