Ocorreu entre 21 e 24 de maio a quarta edição do antenado C6 Fest em São Paulo, festival que já se consolidou parte do calendário cultural paulistano graças a uma curadoria atenta para nomes emergentes da cena internacional e à sofisticação estrutural — marcada pela presença de restaurantes badalados da capital e de dois palcos fora do comum: o excelente espaço coberto chamado Tenda Metlife e os fundos do Auditório Ibirapuera, cujas paredes brancas se transformam em gloriosos telões ao cair da noite.
Ainda assim, a edição enfrentou dois problemas. Um era incontornável: o péssimo clima do final de semana, que, especialmente no sábado, desaguou em forte chuva ao começo da tarde. Outro foi a instabilidade da mixagem de som, com graves ora acentuados demais e vocais baixíssimos durante certa apresentação. Confira pontos altos e baixos do evento:
Baixo: Amaarae
A ganesa-americana Amaarae, com palco simples e um desempenho ancorado no autotune, abriu os shows da Arena Heineken no sábado, tentando agitar os espectadores ainda preguiçosos diante do tempo feio em São Paulo. Nem seu visual tão inusitado quanto memorável, nem as batidas mais fortes do disco Black Star foram suficientes para segurar o público, que se dispersou conforme a chuva engrossava. Ela, ao menos, não tardou para tocar um de seus maiores hits recentes, Starkilla, que foi a segunda faixa da setlist.
Alto: Wolf Alice
Por volta das 15h de sábado, a Tenda Metlife, palco secundário do festival, já estava lotada. O público se dividia entre fãs da banda inglesa Wolf Alice, que veio a São Paulo pela primeira vez em mais de 15 anos de existência, e fãs do The National, que guardavam lugar para prestigiar o projeto solo do vocalista Matt Berninger. A primeira ala se provou mais apaixonada, apesar de algumas questões técnicas e o atraso de dez minutos da banda inglesa – muito provavelmente a razão pela qual o grupo deixou de fora a música Thorns, que normalmente abre os shows da era The Clearing. Também por problemas de som, em Leaning Against The Wall, não foi possível ouvir os instrumentos da banda, transformando a música em um espetáculo quase a capella. A vocalista Ellie Rowsell, porém, apreciou o esforço dos fãs em cantar ainda mais alto para compensar a falta de acompanhamento instrumental, e ao final agradeceu aos fãs por criarem uma versão “especial” da música. Superados os empecilhos, o show seguiu com a apresentação de um repertório ideal para festival: uma mistura de seus maiores hits – como Bros e Don’t Delete The Kisses — com músicas mais introspectivas, como The Sofa, que fizeram brilhar os vocais agudos de Ellie Rowsell, e canções que levaram todo o público a cantar junto, como no refrão de How Can I Make It Ok?, que leva o título da música.
Alto: The XX
No fim de sábado, de volta à Arena Heineken, os ingleses da banda The xx trouxeram uma mistura do som clássico de banda com experimentações na mesa de som – um espaço bem aproveitado por Jamie xx, que também é DJ, e Romy, que também acena para a música eletrônica de vez em quando. Não à toa, um dia antes do show, a cantora levou um DJ set para a balada Zig, popular entre o público LGBTQIA+. Após nove anos sem vir ao Brasil, a banda fez boas escolhas ao incluir na setlist o som ainda fresco de seus hits Crystalized, Islands e Intro. Há uma ressalva: em muitas porções da Arena, a plateia parecia distraída e alheia ao que acontecia no palco, e conversas paralelas prejudicaram a imersão total na apresentação.
Baixo: Magdalena Bay
Já outro nome muito esperado por fãs da cena alternativa não teve o mesmo êxito. A culpa, porém, não é do duo formado pelo americano Matthew Lewin e a argentina Mica Tenenbaum, e sim de múltiplos fatores estruturais. Em primeiro lugar, a apresentação da banda foi prejudicada por um horário ruim — o primeiro do domingo — e não funcionou no palco do Auditório Ibirapuera, que ainda era iluminado pelo Sol e, portanto, só exibia as projeções psicodélicas da dupla em pequenos telões laterais, fora do campo de visão da maior parte do público. Não bastasse isso, o som estava drasticamente desregulado. Quando a vocalista Mica tentava trocar frases afetuosas com a plateia, seus fãs apenas ouviam murmúrios. Em resposta, o público gritava “aumenta” ou “louder” (“mais alto”, em inglês), sem efeito. No fim, ambos ainda cativaram com o charme de suas roupas e máscaras vibrantes, assim como o som de alguns dos melhores hits do disco Imaginal Disk (2025), mas o consenso não poderia ser outro: foi o pior show da edição.
Alto: Oklou
A popstar francesa surpreendeu até mesmo seus fãs mais devotos com uma apresentação visualmente robusta e carregada de energia do começo ao fim — a melhor do festival. Com a ajuda de feixes de luz precisos, da flauta doce e do colaborador Casey MQ, ela garantiu que até suas faixas mais inspiradas na música ambiente agitassem a multidão, que respondeu com furor. Harvest Sky, Endless e Fall foram momentos particularmente cativantes. Curiosamente, Oklou disse a VEJA não ter nascido para performar no palco e admitiu que, por trás dos shows que organiza sem a ajuda de um diretor musical, há muito esforço. A prática, às vezes, de fato leva à perfeição.
Alto: Robert Plant
Como se fosse um dos novatos que haviam se apresentado mais cedo, o ex-vocalista do Led Zeppelin subiu ao palco e se apresentou: “Meu nome é Robert e eu sou da Inglaterra”. A humildade e o carisma continuaram durante o resto da apresentação, que surpreendeu aqueles que o conheciam apenas como líder do lendário grupo de heavy metal. Com banjo e violoncelo no palco, o Deus Dourado do Rock tocou ao lado do grupo Saving Grace, com quem compôs o disco homônimo de 2025, perante a plateia mais cheia do festival.
Alto: Cameron Winter
Ingresso mais disputado do C6 Lab (parte do evento que ocorre à noite, dentro do Auditório Ibirapuera), o americano Cameron Winter não desapontou a multidão de jovens descabelados que o aguardava. Astro de rock mais notório da Geração Z, o rapaz de 24 anos trouxe ao Brasil seu show em estilo de recital — que, na Califórnia, foi filmado pelo oscarizado Paul Thomas Anderson. Sem interagir com a plateia, ele se debruçou sobre o piano por uma hora e cantou as faixas melancólicas do disco Heavy Metal com primor. Sua voz grave e gutural divide opiniões na internet, mas, ao vivo, não houve quem não se rendesse ao timbre cru e repleto de alma, ou ao jeito lúdico com o qual ele toca as teclas de marfim. Sob a postura irônica, seu som se revela mais honesto do que muitos.
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