Documentos recentes divulgados pelo National Transportation Safety Board (NTSB) indicam que motoristas de veículos da Ford, que utilizavam o sistema de condução semiautônoma BlueCruise, provavelmente estavam desatentos segundos antes de colidir fatalmente com outros automóveis em 2024.
As informações foram tornadas públicas nesta quarta-feira (11) e antecedem uma audiência pública marcada para 31 de março, em Washington D.C. (EUA), onde o NTSB discutirá as conclusões e poderá propor recomendações à Ford.
O NTSB atua como agência federal independente que investiga acidentes de transporte, mas não possui poder regulatório sobre a indústria. Espera-se que um relatório final sobre o caso seja divulgado semanas após a audiência.
Investigações e recomendações
Além da análise do NTSB, os incidentes desencadearam uma investigação por parte da National Highway Traffic Safety Administration (NHTSA);
A NHTSA, órgão regulador de segurança, informou no início de 2025 que o BlueCruise apresentava limitações na detecção de veículos estacionados sob certas condições, intensificando a apuração;
Em junho de 2025, a reguladora enviou um extenso questionário à Ford, que respondeu em agosto do mesmo ano;
A investigação da NHTSA permanece em andamento.
A Ford, por sua vez, tem reiterado que o BlueCruise é um recurso para comodidade, e que os condutores devem permanecer vigilantes e aptos a assumir o controle do veículo a qualquer momento. A empresa também alerta que o recurso “não é um sistema de aviso ou prevenção de colisões“.
Diante desses eventos, a investigação do NTSB e a audiência iminente devem aumentar o escrutínio sobre como as fabricantes, como a Ford, comunicam a finalidade dos sistemas de assistência ao motorista e quais são as melhores práticas para garantir seu uso adequado.
A distração ao volante é um tema recorrente em várias investigações que envolvem outros sistemas populares de assistência, como o Autopilot da Tesla, já aposentado, e o software “Full Self-Driving (Supervised)”, o FSD.
Uma investigação anterior do NTSB sobre uma morte relacionada ao Autopilot em 2018 destacou a importância da distração.
Robert Sumwalt, então presidente do NTSB, comentou sobre o acidente de 2018: “Neste acidente, observamos uma dependência excessiva da tecnologia, vimos distração, notamos a ausência de uma política que proibisse o uso de celular enquanto se dirige e identificamos falhas na infraestrutura, que, juntas, levaram a essa perda trágica.”
Primeiro acidente
Os acidentes envolvendo o sistema BlueCruise ocorreram no início de 2024. O primeiro incidente foi registrado em fevereiro, na cidade de San Antonio, Texas (EUA). Um motorista, transitando na faixa central da Interestadual 10 em um Ford Mustang Mach-E 2022, colidiu com um Honda CR-V 1999 que estava parado.
A velocidade do Mach-E no momento do impacto era de aproximadamente 119 km/h. O condutor do Ford utilizava o BlueCruise pouco antes da colisão, que aconteceu às 21h48, horário local. O motorista do Ford sofreu ferimentos leves, enquanto o condutor do Honda veio a óbito em decorrência dos ferimentos.
Os novos dados divulgados pelo NTSB nesta quarta-feira (11) indicam que o sistema de monitoramento de motoristas, baseado em câmeras do Ford, identificou que o condutor olhava para a tela de infoentretenimento principal nos cinco segundos anteriores ao impacto.
O sistema só registrou que ele olhou para a via por curtos períodos: algumas frações de segundo, aproximadamente 3,6 segundos antes da colisão, e novamente cerca de 1,6 segundo antes. Ele recebeu dois alertas visuais e sonoros para prestar atenção na via nos 30 segundos que antecederam o acidente, mas não acionou o freio antes da batida.
Documentos revelam que o motorista informou à Polícia de San Antonio que utilizava o sistema de navegação do veículo para localizar um posto de carregamento. Um dos relatórios aponta que “ele pode ter olhado para a tela central do console porque as instruções para a estação de carregamento eram exibidas ali”.
Embora seja improvável confirmar com base nas informações divulgadas, é possível que ele estivesse demonstrando sinais de sonolência antes do acidente. O sistema da Ford capturou uma imagem do motorista dois segundos antes da colisão, que, conforme o NTSB, o mostra “sentado ereto e de frente, com a cabeça apoiada (ou quase apoiada) no encosto de cabeça e levemente virada para a direita”. Após ser interrogado pela polícia, o motorista contratou um advogado, que não permitiu que ele falasse com o NTSB.
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Segundo acidente
O segundo acidente fatal envolvendo um veículo com Ford BlueCruise ocorreu em março de 2024, na Filadélfia (EUA). A motorista de um Mach-E 2022 colidiu com um Hyundai Elantra 2012, que estava parado na faixa esquerda da Interestadual 95, às 3h16 da manhã, horário local. O Elantra atingiu um Toyota Prius 2006 que havia parado à sua frente.
Os dois motoristas do Elantra e do Prius eram amigos e haviam parado por uma razão desconhecida; o condutor do Prius havia saído do carro e estava ao lado esquerdo do Elantra. Os dois motoristas — do Elantra e do Prius — morreram, enquanto a motorista do Mach-E teve ferimentos leves.
A motorista do Mach-E, uma mulher de 23 anos chamada Dimple Patel, estava embriagada no momento do acidente, segundo a polícia local. No final de 2024, ela foi acusada de homicídio por dirigir sob a influência de álcool ou drogas. Ela estava a aproximadamente 116 km/h antes do impacto, apesar de estar em zona de construção com limite de velocidade de 72 km/h.
Zak Goldstein, advogado de Patel, confirmou ao TechCrunch que o caso ainda está em andamento e a data do julgamento não foi estabelecida. Os novos documentos do NTSB indicam que o sistema de monitoramento de motoristas no carro de Patel registrou os olhos dela “na estrada” durante os cinco segundos completos antes da colisão.
No entanto, uma fotografia tirada dois segundos antes do impacto parece mostrar ela em uma posição que poderia indicar distração ou sonolência, apesar do registro do sistema de monitoramento de motoristas.
Estes casos somam-se ao crescente debate sobre a interação entre a assistência tecnológica na condução e a responsabilidade humana, levantando questões importantes sobre a segurança e a comunicação dos fabricantes em relação às capacidades de seus sistemas de assistência ao motorista.
As investigações continuam a fornecer dados cruciais para entender as causas e as implicações desses acidentes e para informar futuras regulamentações e melhorias nos sistemas de condução autônoma e semiautônoma.
O post Ford: antes de acidentes fatais, motoristas com sistema semiautônomo se distraíram apareceu primeiro em Olhar Digital.




