Essa música está em milhares de vídeos do TikTok, mas muitos desses jovens que compartilham não sabem a história da “Balada de Gisberta”, que conta a história revoltante de uma brasileira que, há 20 anos, foi morta de forma Brutal em Portugal, no dia 22 de fevereiro de 2006, e se transformou em símbolo combate à transfobia. Hoje, fazemos uma homenagem a ela.
A música “Balada de Gisberta” foi criada pelo português Pedro Abrunhosa e brilhantemente gravada por Bethânia, com uma interpretação muito profunda. Virou um hino contra a transfobia e fez Portugal criar novas leis para proteger a população LGBTQUIA+
Gisberta Salce Júnior, era uma mulher trans que saiu de São Paulo em 1980 e foi tentar a vida na Europa. Ela tinha 45 anos quando foi agredida e violentada por 14 adolescentes, durante vários dias. O corpo dela foi encontrado amarrado com madeira, no fundo de um poço de 15 metros.
A música conta a história de Gisberta
“Perdi-me do nome, hoje podes chamar-me de tua. Dancei em palácios, hoje danço na rua. Vesti-me de sonhos, hoje visto as bermas da estrada. De que serve voltar, quando se volta para o nada”, diz o início da canção.
E anuncia: “Eu não sei se um Anjo me chama, eu não sei dos mil homens na cama e o céu não pode esperar. Eu não sei se a noite me leva, eu não ouço o meu grito na treva. O fim quer me buscar”.
E fala dos tempos de glória e decadência: “Sambei na avenida, no escuro fui porta-estandarte. Apagaram-se as luzes, e o futuro que parte. Escrevi o desejo, corações que já esqueci. Com sedas matei. E com ferros morri”. E finaliza: “Trouxe pouco, levo menos. A distância até ao fundo é tão pequena. No fundo, é tão pequena a queda. E o amor é tão longe”.
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Gisberta era de São Paulo
Gisberta nasceu com o nome de Gisberto, em São Paulo, e era a caçula de uma família com oito filhos. Ainda criança ela sentia que não se identificava com o corpo de menino porque era absolutamente feminina.
Após a morte do pai, ela fez 18 anos e decidiu se mudar para a Franca, por medo da crescente violência contra transexuais na capital paulista. Lá, ela fez tratamento hormonal, se tornou mulher trans e foi para o Porto, no Norte de Portugal, com visto de residência, onde começou a trabalhar como transformista em bares e boates gays.
Mas teve que recorrer à prostituição para sobreviver porque a vida de artista não pagava as contas no final do mês. O nome de homem no corpo de mulher dificultava que ela conseguisse emprego formal. Gisberta ficou sem dinheiro e teve de deixar o apartamento onde morava no Porto.
Sem conseguir renovar o visto, ela virou imigrante ilegal e foi parar nas ruas. Aí ela contraiu HIV, que evoluiu para a Aids, se envolveu com drogas e conheceu o lado mais sombrio e perverso do ser humano.
Morta a pedradas e pauladas
Gisberta foi obrigada a morar num prédio em obras, abandonado no Porto. No fim de dezembro de 2005, três adolescentes pichadores foram ao prédio e começaram a ajudá-la com alimentos, porque Gisberta era amiga da mãe de um deles.
Mais tarde a notícia que ela estava lá se espalhou e 14 jovens – de 12 a 16 anos – foram até o prédio abandonado e começaram a fazer barbaridades com ela. Durante três dias, Gisberta foi agredida a pedradas, pauladas, chutes e foi sexualmente torturada com o uso de pedaços de madeira. Ela teve o corpo queimado com cigarros.
Entre 21 e 22 de fevereiro, os jovens voltaram ao prédio abandonado, julgaram que ela estava morta e jogaram Gisberta no fosso do prédio, que estava cheio de água. E a brasileira, que estava inconsciente, mas ainda viva, morreu afogada. Um dos adolescentes confessou o crime a uma professora da escola e, no dia seguinte, a história macabra ganhou os jornais do país.
Na época, apenas um dos adolescentes criminosos foi condenado, a apenas oito meses, por omissão de auxílio, ou seja, por não ter ajudado a uma pessoa que corria risco de morte. A justiça alegou que o assassinato foi “uma brincadeira de mau gosto de crianças que fugiu ao controle”. Em 2007, um ano e meio depois do assassinato, todos estavam livres.
Obrigou Portugal a mudar as leis
O assassinato brutal de Gisberta chocou a sociedade portuguesa, gerou debates, mobilizou a comunidade LGBTQIIA+ e abriu caminho para transformações legais.
A morte da brasileira fez o país criar leis que tratam da igualdade de gênero, inclusão de direitos homossexuais e transgêneros e obrigou a imprensa a mudar a narrativa sobre pessoas transsexuais.
Agora, as leis portuguesas garantem a pessoas trans mais acesso à Justiça, à educação e ao emprego. E foi aprovada também a concessão de asilo a transexuais estrangeiros em risco de perseguição.
A história de Gilberta ecoou
A vida dela foi transformada em peça de teatro, depois em documentário e em seguida na canção Balada de Gisberta.
O corpo dela está enterrado em São Paulo, mas a memória de Gisberta virou um hino internacional, para ninguém jamais esquecer o que o ódio e a transfobia são capazes de provocar na vida de alguém.
Gisberta virou símbolo de resistência e um chamado mundial pela empatia, por justiça e, acima de tudo pelo “amor ao próximo” pregado na bíblia, que muitos defendem, mas poucos seguem na prática nesse planeta.
Ouça Balada de Gisberta, na voz de Maria Bethânia:




