Pesquisadores da China e dos Estados Unidos detalharam um processo interno que explica por que células do sistema imunológico deixam de combater o câncer após um período de atuação intensa. O trabalho foi divulgado em duas revistas científicas internacionais.
O foco do estudo são as células T CD8+, responsáveis por reconhecer e destruir células tumorais. Embora sejam fundamentais na resposta contra o câncer, elas podem entrar em um estado de exaustão quando permanecem estimuladas por tempo prolongado.
Ao compreender como esse esgotamento acontece, os cientistas apontam caminhos para restaurar a atividade dessas células. A descoberta pode contribuir para aprimorar terapias já utilizadas, como imunoterapia e tratamentos com células CAR-T.
Por que as células T deixam de funcionar
As células T CD8+ desempenham papel central na vigilância contra tumores. Elas identificam alterações nas células do próprio organismo e iniciam um ataque direcionado.
O problema surge quando o contato com o câncer se prolonga. A estimulação contínua provoca mudanças internas que reduzem a eficiência dessas células. Em vez de manter a atividade plena, elas passam a responder de forma limitada.
Esse fenômeno, conhecido como exaustão celular, é um dos fatores que comprometem a durabilidade de tratamentos baseados na ativação do sistema imunológico.
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Como acontece
A pesquisa foi conduzida por Li Guideng, do Instituto de Medicina de Sistemas de Suzhou, em colaboração com Philip D. Greenberg, do Fred Hutchinson Cancer Center.
Segundo os autores, o estímulo constante vindo do tumor ativa um processo que inibe a proteína FOXO1. Essa proteína atua como reguladora do funcionamento das células T, mantendo equilíbrio metabólico e capacidade de resposta.
Com a redução da atividade do FOXO1, ocorre queda na produção de uma enzima chamada KLHL6. Essa mudança desencadeia uma cadeia de alterações que favorecem o estado de exaustão.
Philip Greenberg explicou que a investigação permitiu observar “um circuito interno que conecta estímulo crônico e perda de função celular”, oferecendo uma explicação mais detalhada do processo.
Proteínas prejudiciais
A KLHL6 tem a função de identificar proteínas que precisam ser eliminadas. Quando há diminuição dessa enzima, substâncias associadas ao desgaste celular passam a se acumular.
Entre elas estão:
TOX, ligada à progressão da exaustão das células T;PGAM5, associada a alterações nas mitocôndrias, responsáveis pela produção de energia.
Sem controle adequado, essas proteínas comprometem o metabolismo da célula e reduzem a disponibilidade de energia. O resultado é uma célula menos ativa e com menor capacidade de resposta ao tumor.
Nos testes laboratoriais, o aumento dos níveis de KLHL6 ajudou a restaurar parte da atividade das células T, indicando que o processo pode ser reversível em determinadas condições.
Possíveis aplicações no tratamento
A imunoterapia depende da ativação eficiente das células de defesa para combater o câncer. Em muitos casos, há boa resposta inicial, mas a eficácia diminui quando ocorre exaustão celular.
Com a identificação do papel da KLHL6, surgem possibilidades de desenvolver medicamentos que ampliem a atividade dessa enzima ou reproduzam a função exercida por ela. Essa estratégia pode fortalecer abordagens já existentes.
Tratamentos como bloqueadores de pontos de controle imunológico e terapias com células CAR-T e TCR-T podem se beneficiar de mecanismos que evitem o desgaste precoce das células T.
Os pesquisadores avaliam que o avanço amplia o entendimento sobre a regulação interna dessas células e abre novas frentes para estudos clínicos voltados ao aumento da eficácia terapêutica.
Sistema imunológico do Adenocarcinoma gástrico, o tipo de câncer estomacal mais comum – (crédito: WikimediaCommons/Divulgação )




