Brasil sofre de ‘atração fatal’ por crises

Há quase 40 anos o país intercala períodos de certa tranquilidade, com episódios de crise política – estes, naturalmente, acompanhados de apreensão que superam aqueles. Afinal, a instabilidade é sempre mais inquietante que a normalidade.  

Dizendo de outro jeito… se você está num voo com duração de seis horas, e por 40 minutos o avião enfrentar forte turbulência, não são as cinco horas e 20 minutos que serão lembradas, mas os tais 40 minutos, a despeito da aeronave aterrissar no horário, concluindo uma viagem segura e tranquila.

Em 1985, o Brasil deixava para traz 21 anos de regime militar, elegendo Tancredo Neves via Colégio Eleitoral. Mas na véspera da posse, em 14 de março, Tancredo foi internado às pressas para tratar de apendicite aguda. 

A discussão, então, girou em torno da legitimidade da posse do vice, José Sarney, visto que Tancredo não chegou a ser empossado. A solução foi permitir que Sarney assumisse interinamente, até a recuperação de Tancredo.    

1ª Crise – Mas, após 38 dias e sete cirurgias, Tancredo faleceu. Esse período foi, por assim dizer, de ‘pisar em ovos’, dando origem à primeira crise pós-redemocratização. Isso face à desconfiança sobre Sarney. Afinal, depois de duas décadas de ditadura, por ironia do destino o governo viria cair nas mãos de um aliado do antigo regime que, por seu turno, também já não via o oligarca como parceiro. Enfim, foram meses de crise, digamos, moderada.  

Sarney faria um dos piores governos da História.   

(Foto: Reprodução)

Collor: nova crise 

Em 1989, após quase 30 anos, o Brasil festejava o retorno do voto direto. O nome que logo despontou como favorito foi o de Fernando Collor, embalado como o ‘defensor dos descamisados’ e ‘Caçador de Marajás’. Isso, numa eleição que contou com nomes de peso, como Ulysses Guimarães, Mário Covas, Brizola, Roberto Freire, entre outros. Collor derrotou Lula da Silva no 2º turno, tornando-se o presidente mais jovem da História.  

(Como curiosidade, na época falou-se que a TV Globo teria sido tendenciosa e editado o último debate presidencial, exibido no Jornal Nacional, que acabou favorecendo Collor. O próprio Armando Nogueira, um dos grandes nomes da imprensa brasileira, na época diretor de jornalismo da TV, admitiu o erro. Mas, resta claro, a Globo de 1989, como em 2022, seria incapaz de agir de má fé). 

Voltando à crise Collor, em meados de 1991, escândalos em série vieram à tona, envolvendo o presidente e figuras do alto escalão. Meses depois, entrevista de seu irmão Pedro, publicada na Veja,expos esquema de corrupção orquestrado pelo ex-tesoureiro da campanha, PC Farias.  

‘Caras pintadas’ – Daí por diante a situação do presidente ficou insustentável. O povo foi às ruas para exigir sua saída – o movimento dos ‘Caras-pintadas’.  Em setembro de 1992 a Câmara vota pelo impeachment e Collor é afastado. No final do ano, renuncia à presidência, horas antes de ser condenado pelo Senado.  

A era FHC  

De 1995 a 2002, em dois mandatos consecutivos – o único dos presidentes a se eleger no 1º turno – a gestão Fernando Henrique Cardoso enfrentou turbulência econômica sem, contudo, mergulhar o Brasil em crise. 

O governo FHC consolidou do Plano Real e colocou em prática programas assistenciais de grande alcance, particularmente nas áreas da Saúde, Educação. Contudo, enfrentou forte oposição na execução das privatização e certa inquietação político-social por conta das investidas perturbadoras do MST, muitas das quais com objetivo oculto de desestabilizar o governo. 

FHC experimentou altos e baixos. Precisou recorrer algumas vezes ao FMI, mas o governo deu um salto desenvolvimentista cujos frutos seriam colhidos mais adiante. 

A vez de Lula 

Depois de três tentativas, Luiz Inácio Lula da Silva abandonou o discurso mais radical – socialismo e esquerda ganharam conotações quase simbólicas – e venceu o 2º turno da eleição presidencial (2002) com folgados 23 pontos à frente de José Serra. Só para constar: não foram 2,3 pontos; foram vinte e três mesmo.  

Expandindo os programas sociais deixados por FHC – mérito dele, registre-se – pontuou seu governo pelo equilíbrio, na base do ‘esqueçam tudo que eu disse’. Foi bem sucedido nos programas de inclusão social e assistência aos mais pobres. 

Em 2005 o governo quase ruiu com o escândalo do mensalão – denominação dada à mesada paga aos deputados para que aprovassem os projetos de interesse do Planalto. Lula disse que não sabia de nada… não sabia do que era arquitetado por seu chefe da Casa Civil, José Dirceu, no gabinete ao lado. 

Retirante nordestino” – Sem enfrentar a questão, subiu no ‘caminhãozinho’ do PT e percorreu o Brasil valendo-se do velho discurso de retirante nordestino que estava sendo perseguido “pelas elites”.  Zé Dirceu foi exonerado da Casa Civil e perdeu o mandato de deputado. Apesar da gravidade do escândalo, o Brasil mergulhou não em crise –  a economia mundial nadava de braçada – e Lula emplacou o 2º mandato.  

(Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil)

Dilma/Temer – Crise III

Na sucessão de Lula, Dilma Rousseff fez um governo apático. Sem o menor traqujejo político, tropeçou nas próprias pernas e passou 4 anos no feijão com arroz.  

Na reeleição (2014) escondeu a recessão econômica que se avizinhava e deixou que o PT fizesse as transgressões para um novo mandato. Alguns analistas acreditam que ela nem sabia o que de fato ‘rolou’ na campanha. 

A vitória veio acompanhada de um turbilhão de denúncias, entre elas o Petrolão. Em menos de’ um ano a Câmara acolheu pedido de impeachment por crime de responsabilidade face à edição de créditos suplementares – as pedaladas fiscais. 

Em agosto de 2016 Dilma perdeu o cargo do qual já se encontrava afastada desde maio. Michel Temer, então interino, assumiu em definitivo. 

Recessão – Entre fins de 2014 e 2017/18 o Brasil experimentou recessão econômica sem precedentes. Os protestos Brasil afora viraram paisagem comum. O ‘Fora Dilma’ deu lugar ao ‘Fora Temer’ – o “golpista” – e o país amargou a tempestade perfeita.  

Cabe reconhecer, Temer iniciou a recondução da recuperação econômica. Contudo, a conversa gravada entre ele e Joesley Batista manchou de forma irreversível o governo. De toda sorte, deixou a crise menor do que a encontrou. 

2022: a 4ª crise  

Da redemocratização aos dias atuais, estamos passando pela quarta grande crise, que começou com o baixo nível das campanhas de ambos os lados e prossegue com as manifestações nas ruas, principalmente defronte aos quartéis. Após a vitória de Lula por 1,8% de diferença, o país já dividido permanece instável.  

Os erros de Bolsonaro que podem lhe ter custado a derrota foram mencionados na página de domingo passado, 04. Mas não se pode negar que o Brasil passa por momentos de turbulência, que vão desde a ‘militância’ dos grandes veículos de comunicação, passando por acusações de censura, pelo excessivo protagonismo do judiciário e pela não separação do que seja liberdade de expressão e manifestação (dentro dos limites da Constituição) de atos golpistas e criminosos. 

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